CorraAtrásDessesLivros (8ª edição)

Esta é uma campanha de incentivo à leitura. De modo que os colunistas d’O BULE lhes sugerem, caro leitor e querida leitora, alguma obra clássica da literatura, ou ainda algum texto tão marcante que poderá se refletir em outros leitores. É isto.


Boa leitura!


> MÁRCIA BARBIERI sugere:
Nossa Senhora das Flores, de Jean Genet – Esse livro é uma verdadeira obra-prima de Genet, cujo cenário é a cela de uma prisão. É retratada com uma linguagem erótica, poética e crua a solidão do homem, a hipocrisia e a fragilidade das relações humanas. O livro é uma verdadeira epopéia do mundo marginal. Depois de ler temos a impressão que podemos a qualquer momento nos deparar com um dos seus personagens. E não é ilusão, seus personagens são de carne e osso e vivem entre nós, nas esquinas, nos metrôs. Quantas vezes peguei o ônibus e tive a certeza que ao meu lado estava Divina, fiz a menção de perguntar, não perguntei, apenas sorri, eu sabia, era ela. Para quem tiver interesse em uma crítica do livro, clique AQUI.

Ovelhas Negras, de Caio Fernando Abreu – É um livro que todo escritor deveria ler, não pela qualidade literária, mas porque encontramos a trajetória do autor. É uma espécie de linha do tempo, conseguimos enxergar a sua evolução, o quanto ele cresceu ao longo dos anos. São textos renegados por vários motivos, entre eles a censura militar. São considerados textos marginais, obscenos, cruéis. De todos os contos os que mais me chamaram a atenção, pela linguagem crua e poética ao mesmo tempo, foram A hora do aço, que, sinceramente, com um título desse não precisaria mais nada, magnífico, e Sob o céu de Saigon, que no início parece despretensioso, apenas uma espécie de câmera seguindo os personagens, mas o final tem uma imagem linda, o céu desconhecido de Saigon.

Um copo de cólera, de Raduan NassarO tema da novela é a luta que se trava entre um casal de amantes, ocasionada por uma razão aparentemente banal, mas que tem uma simbologia maravilhosa, formigas atravessam a cerca viva. Enquanto Lavoura Arcaica tem uma linguagem erudita, profética e arcaica, a linguagem desta novela é moderna, tresloucada, cheia de gírias. Entretanto, mantém longos períodos e a recriação de uma oralidade expressiva, que se aproxima do poético e do visceral do primeiro romance. O mais interessante é a desconstrução da narrativa pelo discurso feminino, ela narra apenas as últimas páginas e o livro ganha uma força descomunal, nos sentimos deliciosamente enganados.


> CLAUDIO PARREIRA sugere:
Uivo, de Allen Ginsberg Lançado no outono de 1956, o longo e profético Uivo de Allen, de Ginsberg (1926-1997) foi apreendido pela polícia de San Francisco, sob a acusação de se tratar de uma obra obscena. Depois de um tumultuado julgamento, semelhante ao que foi submetida a novela de William Burroughs, Naked Lunch, o poema foi liberado pela Suprema Corte americana e vendeu milhões de exemplares. Um clássico da Beat Generation, numa excelente tradução de Cláudio Willer para a LP&M.

O Alienista, de Machado de Assis As crônicas de Itaguaí contam que viveu ali em tempos remotos um certo médico, o Dr. Simão Bacamarte, filho da nobreza do lugar e o maior dos médicos do Brasil, Portugal e Espanha. Com o fim de estudar a loucura, ele trancafia no asilo que construíra e dera o nome de Casa Verde, um quinto da população da vila, o que traz à tona uma questão que nos perturba até hoje: quem são, de fato, os loucos?

Estátuas de Sal, de André Cardinali Quem são as Estátuas de Sal? Dez anos depois que Deus destruiu São Paulo por conta dos pecados de seus habitantes, a pergunta ainda rodeia a cabeça de Alice, principalmente agora que seu pai foi encontrado morto, com suspeitas de suicídio. Livro de estreia do jovem André Cardinali, Estátuas de Sal impressiona pela narrativa ágil e repleta de surpresas. Ambientado numa São Paulo devastada, o livro prova que é possível escrever boas histórias que tem como cenário o Brasil. Fiquem de olho neste autor. Ele promete.

> GERALDO LIMA sugere:
Obsceno Abandono, de Marilene Felinto – Foi tão impactante a leitura desse livro, que corri para o computador e escrevi um ensaio (Três vozes femininas e a dor do abandono) em que aproximo a voz da protagonista da voz amargurada de Medéia e da voz sofrida e vacilante de Sóror Mariana Alcoforado. Marilene Felinto escreve rasgando, expondo realmente as entranhas da personagem. Não há pudor. Tudo é laceração. A protagonista (a amante abandonada) expõe a intimidade do seu corpo e da sua alma num desabafo poético e ácido. Duvido que o leitor saia indiferente da leitura dessa novela de Marilene Felinto.

A Paixão Segundo G.H, de Clarice Lispector – a Clarice mais radical, capaz de descer ao subsolo da alma humana, encontra-se nessa obra. Ela nos leva, juntamente com a protagonista, a tocar o abjeto. O leitor é convidado a vivenciar a mais perturbadora experiência estética e humana. Linguagem, forma e conteúdo estão presentes de modo inovador nesse romance clariceano.

A Artista do Corpo, de Don DeLillo – Certas experiências de leitura são perturbadoras. A artista do corpo, de Don DeLillo, é uma dessas leituras que nos deslocam, nos tiram do eixo. Não se pode dizer, ao fim da leitura: a realidade permanece a mesma. Quem pode dizer algo assim após ler Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar, Os ratos, de Dyonélio Machado, A metamorfose, de Kafka, Crime e castigo, de Dostoiévski, Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis? No caso do livro de Don DeLillo, em certos momentos a narrativa lembra a de Clarice Lispector, e isso já nos diz tudo.


> ROGERS SILVA sugere
Angústia, de Graciliano Ramos – Não há dúvida de que Graciliano Ramos é um dos maiores escritores brasileiros. A dúvida é: qual sua melhor obra? Vidas secas? Memórias do cárcere? São Bernardo? Na minha opinião, Angústia, esta sim sua obra maior, mais visceral, escrita com ódio, mas de um ódio literário e comedido, saturado de uma coisa parecida com humanismo.
Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez – Para muitos, uma das dez maiores obras literárias de todos os tempos. Mentira? Exagero? Leia e tire suas próprias conclusões. Apenas posso dizer duas coisas: 1) na minha lista das dez melhores, Cem anos de solidão tem vaga garantida e vitalícia; 2) não morra sem lê-la, porque com certeza morrerá mais vazio(a).


> RICARDO NOVAIS sugere:


A captura de Cérbero, de Agatha Christie – Entre relíquias, pistas misteriosas, notas de todo suspense, enigmática narrativa que fascinam gerações. Numa célere viagem de trem ou de metrô, o leitor desavisado poderá até desconfiar de seu colega no banco transversal ao lado; principalmente se na cidade o mistério e a aventura conviverem se perseguindo.
Ereções, ejaculações e exibicionismos, de Charles Bukowski – Extremamente de caráter autobiográfico, a literatura do velho Buk, o velho safado, caminha por personagens marginais, putas, sexo vazio, alcoólatras irrecuperáveis, ressacas homéricas, jogadores compulsivos e toda a sorte de pessoas miseráveis e fracassadas na vida. Este livro é o lado B da sociedade americana, em que o humor ferino, auto-irônico e cáustico do escritor metem o nariz no sonho estereotipado de perfeição dos EUA, a pretenciosa nação do poder.

Contos, de Machado de Assis – És tu, velho bruxo, meu escritor preferido; se revolve em mim tantas questões antagônicas. Os contos de Machado são extraordinários! Missa do Galo, O espelho, A cartomante, Um homem célebre, O caso da vara, Pai contra mãe, Capítulo dos chapéus são algumas das histórias mais incríveis de todos os tempos e inseridas na chamada 2ª fase do autor, ou fase de sua maturidade, na qual englobam alguns dos clássicos da ficção mundial como os romances Memórias póstumas de Brás Cubas, Capitu, Quincas Borba, Esaú e Jacó, entre outros. Obras estas do maior vulto da literatura em língua portuguesa. Exagero? Não há exagero ao perceber o escritor, filho de qualquer tempo e qualquer sociedade urbana, destruir toda a vaidade e pretensão humana de querer ser mais do que se é. Não há excessos em textos reflexivos e bem-humorados, que nos cortam o dorso de lado a lado com uma lâmina muito afiada, ferina, irônica. Bruxo, maldito; maldito bruxo!