(Fernanda Bastos)
Por Rogers Silva
Por que papai vai
trabaiá todo os dia?, e perguntei pra mamãe e ela disse que senão eu não
comia nem tinha como estudá nem nada. E nem presente, eu lembro que ela
completou e eu pensei Mas que presentes? Só pensei. Não falei nada pra
mamãe porque ela era meio braba. Eu era menino e menino apanha facin. Xispa.
Papai era bonzinho. Todos os dia ele chegava umas sete horas da noite, me dava
um beijo no rosto que eu logo limpava a baba, me colocava no colo e dizia que
no Natal eu ia ganhá do Papai Noel um presentão. E eu ficava feliz imaginando
que depois de dormir e acordá eu ia pra árvre de Natal (esse ano tinha que tê
árvre de Natal. Em todas casas tinha. Até naquelas da televisão!) – eu ia pra
árvre e lá ia tê uma caixa bem bonitinha e tudo, com um lação desse tamanhão,
ó, e ia abrir e ia tê uma bicicleta e um videogame e um monte de fitas. Depois
ia, voltava pro meu quarto e de debaixo da cama ia tê mais presentes: um monte
de caixinhas e outras grandes assim, ó. Mas ainda não era Natal. Até lá...
Eu tinha uma amiga que era muito esperta e se
chamava Clarissa. Ela tinha a mesma idade que eu mas era mais inteligente. Ela
dizia umas coisa estranha tipo que a água da chuva saía das nuvens e na lua era
tudo escuro e o sol que era clarinho, clarinho e quente. Eu dizia algumas
coisas também, mas tudo que eu ouvia dos professor, tipo Pedro Álvares Cabral e
células e outras coisas mais sobre o Brasil. E ela dizia Mas isso todo mundo
sabe e eu dizia Que mentira! e saía chateado porque ela era mais
conhecedora do que eu. Um dia ela, branquinha, coitada, com aqueles cabelos
pretinhos e grandes, disse que o vô dela era forte que carregava um cimentão
assim, ó, bem pesado, com um só dedo. Eu disse Meu avô é mais e carrega um
Escort com uma mão só. Ela disse Mentira porque seu vô já morreu. Eu
fiquei chateado e disse Ih, você é bobona bobona bobona e fui sentar de
debaixo da árvre que a gente sempre falava que ia fazê uma casinha e nunca
fizemo. Ela veio toda boazinha e pediu desculpas e falou que quando os avôs
morre eles vai prum lugar que nem a casinha que nós queria fazer, lá, ó, bem
calmo, só que bem maior. De repente deu um barulho forte do trovão e ela disse Sabia
que os relâmpos vêm antes dos trovão só que eles é o mesmo? Não entendi.
Mas ri daquele jeito meu assim que nem um indinho, como todo mundo falava. Ela
riu também e eu senti uma coisa estranha e ruim aqui dentro, ó, e depois à
noite na minha cama eu chorei até.
Nós passava o dia inteiro juntados, eu e a
Clarissa. A mãe dela era legal e dizia que eu era o índio mais bonito do mundo
inclusive aqueles lá de lonjão. Dizia que ia namorá com a Clarissa, mas eu
dizia Sai fora. Eu nem vou namorá. Clarissa sorria com aquele jeito dela
igual da mãe. As duas tinha uns olhos meio claros. A mãe da Clarissa também era
muito bonita. Na escola ela era mais adiantada uma série do que eu, mas no
recreio a gente ficava sempre juntado. O povo lá dizia que a gente namorava e
eu ficava brabo. Eu nem vou namorá, dizia sem graça quando não ficava
com raiva. Ela ria.
Depois de outubro vem novembro, depois
dezembro e depois o Natal,
ela disse. A gente tava em frente da represa que minha mãe não gostava que eu
ia. Mas eu não entrava, eu era medroso, a Clarissa mesmo que falava. Ela entrava,
mas só um pouquinho, e nadava. Ela me chamava e dizia pra mim entrar. Tô sem
vontade. Cê tá é com medo. Tô nada! Medroso, medroso, medroso, e jogava
água em mim. Eu corria brabo, voltava pra olhar pra ela e ela ria. Perdia com
isso minha brabeza. Por que ela sempre ria?
Um dia à noite a gente brincando de pique
esconde com outros meninos perto de casa, aconteceu uma coisa estranha. O
Felipinho que tava contando: Um! Dois! Clarissa me pegou o braço e fomos
correno prum pradão, aqueles de luz, bem longe do lugar que o Felipinho tava
contando. O Xandão e o Dedé subiu em cima da casa do Dedé. E a Vanessa e a
Paulinha entrou na casa da Vanessa que era irmã do Felipinho. Quarenta e
nove! Cinqüenta! Pronto! Eu sentia a respiração da Clarissa, távamo
muito perto, o pradão era pequeno e apertado e tava até meio escuro lá dentro.
Eu ia falá alguma coisa mas ela disse shhhiii e colocou o dedo na minha
boca. Távamo pertinho um do outro e ela foi assim chegano, chegano e pegou na
minha mão. Eu tremi e senti uma coisa assim estranha. Credo. Aí então ela me
deu um beijo na boca assim tão rápido e aí o Felipinho apareceu e gritou Clarissa
e Hugo! Peguei! A Clarissa correu bem depressa mas eu fiquei paradinho
dentro do pradão sentino aquele gosto estranho além do friozinho. À noite, na
cama, eu pensava que Clarissa era minha namorada e beijava o travesseiro e
sentia uma coisa boa mas estranha. E chorava. Mas não chorava assim de dor
ruim. Era bom.
Chegando perto do Natal a gente tava brincano
de naviozinho porque tinha chovido e ficou meio alagado, a gente pegou e
brincava de pirata e tudo. Eu disse que ia ganhá um monte de presentão do Papai
Noel esse ano, inclusive um videogame e que tudo ia tá na árvre de Natal de
manhãzinha, viu. E ela riu. Disse que Papai Noel ia só pras crianças lá dos
Estados Unidos e Europa e de lá bem longe, aquelas crianças boazinhas. Eu disse
Mentira. Ele já foi lá em casa e me deu um caminhãozinho ano passado,
menti. Eu nunca tinha visto o Papai Noel. À noite, távamo deitados assim no
chão e olhando pro céu. Seus olhos parecia brilhar que nem uma lanterna
esverdeada do Dedé. Ela disse As estrelas mudam de lugar. Elas andam. Eu
ri. Ih, ó. Cê tá doida?, falei. Falamo de um montão de coisa mas
principalmente do Natal que tava chegano.
Dezembro chegou
e as casas ficaram bonita cheia de luzinhas coloridas e todas enfeitada,
inclusive a minha que nunca tinha sido antes. Mamãe até colocou uma árvre na
sala mas não tão bonita quanto aquelas da televisão. Eu ia perguntá, mas mamãe
era meio braba. A festa mesmo, aquela que todo Natal tem, foi na casa da
Vanessa e Felipinho. Os pais deles eram altões e brancos. Diziam que eram
gaúchos, mas eu num sabia o quê que era isso. A Clarissa de vestidinho
verde-claro e a mãe também tavam, e outras pessoas mais. Minha mãe tava até
mais feliz nesse dia e menos braba. Conversava muito com a mãe da Clarissa.
Dessa vez ficamo eu, a Clarissa, a Vanessa, o Felipinho, o Dedé, o Xandão e
outros meninos que eu não conhecia juntados, todos. Todas as crianças ganhou um
presentinho, uma caixa de bombom, do Sr. Ricardo, pai do Xandão. Foi bom até
esse dia. Mas eu queria mesmo era chegar em casa, dormir e acordá e vê aquele
tantão de presente na árvre lá de casa, de debaixo da cama que Papai Noel ia
deixá. Fomo pra casa e eu já tava com sono e cansado e deitei e dormi sem vê.
Nem vi. Sonhei com eu e com a Clarissa na nossa casinha da árvre que a gente
num tinha feito.
Acordei e fui
correno pra árvre de Natal, nem escovi os dentes nem nada, fui é pra árvre de
Natal pra vê se Papai Noel tinha passado lá em casa e deixado presentes pra
mim. Tinha uma caixona grandona assim, ó, bem grande mesmo e eu tava muito
feliz porque era a primeira vez que eu tinha ganhado presente no Natal e era
grande. Abri correno correno e quando abri vi que era uma bicicleta. Eu fiquei
feliz e fui correno pro quarto do papai e da mamãe falá pra eles que Papai Noel
tinha me dado um presentão que eu queria há muito tempo. Eles riam, riam,
felizes. Até mamãe. Perguntei pra mamãe se eu podia andá com a bicicleta. Ela disse
que à tarde sim, agora não. Eu nem importei. À tarde eu ia com a minha
bicicleta que eu tinha ganhado do Papai Noel pra casa da Clarissa e falá pra
ela que Papai Noel passa nas nossa casa sim, e não só do povo lá de lá.
À tarde eu
peguei minha bicicleta novinha-novinha e fui pra casa da Clarissa que ficava um
pouco perto, mas nem tanto, da minha. Chegando lá eu vi algumas pessoas lá fora
no jardim, estranhas. Passei, como Ayrton Senna, por entre assim, vrummmm, no
meio das pessoas, até chegar na porta. Sua mãe tava vermelha-vermelha e o olho
também e ela gritava e chorava e uma outra abraçava ela muito. Eu não entendi
nada. E nem vi Clarissa. A mãe da Clarissa não me viu porque saí assim
pouquinho depois e perguntei lá fora pro Xandão que era um pouco mais velho e
conhecedor que eu e entendia mais as coisas, o que tava aconteceno. Ele disse
que a Clarissa pegou um naviozão assim, ó, que tinha ganhado da mãe e foi pra
represa sozinha, sem falar com a mãe. Ih, ela é doida, ri. E parece
que ela afogou, continuou Xandão. Ih, mentira!, gritei e pedalei bem
forte minha bicicleta rumo à minha casa. Tinha chovido, parece, à noite, por
isso um ventozinho meio frio batia em meu rosto. Eu corria muito e brequei
forte quando cheguei em casa e quase caí, chorando.
Perguntei pro
papai depois, noutro dia, o que tinha acontecido e ele disse que Papai Noel
tinha levado Clarissa. E eu ficava feliz porque assim ela não ia mais, nunca
mais duvidar do Papai Noel porque tava com ele, pertinho, e ficava triste
porque eu sentia uma coisa ruim aqui assim, ó, uma vontade de ver ela e aquele
sorrizinho e queria ouvir aquelas estranhices que ela falava, mas não podia. Eu
nunca mais ia vê Clarissa? Ah, nem! Nem aquele sorriso, assim, ó? Nem!...



2 comentários:
Lindo conto, delicioso de ler.
Nossa lindo esse conto, sou professora de Geografia , mas atualmente estou com um quinto ano e gostaria de poder trabalhar esse conto com meus alunos
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