(Fernanda Bastos)
Por Rogers Silva
Para Sinvaldo Júnior, que sempre achou que Jesus deveria
ter morrido por algo melhor.
Doía, muito doía, e não havia nada que pudesse fazer para
estancar o sangue, que escorria. A impotência doía. Doía, e não enxergavam, não
viam – ou não queriam ver? Doía e não era dor pouca, pois em todos os momentos
se vira sozinho, todos desapareciam, sua única companhia era o desgosto, era.
As aves no céu voavam indiferentes. E doía. Agora percebia enfim que doía, e
não só percebia como sentia agora todas as dores passadas, agora. A solidão. A
ausência machucava, doía. A ferida aberta, e os vermes vindouros. As mãos
doíam, e muito. As pernas doíam, e muito. O tronco doía. Muito. A flechada, os
cuspes, a coroa, os espinhos – tudo doía. O sarcasmo era o que mais feria,
doía. Os risos. Os socos tão-somente neste instante sentia, e doíam, como socos
dados em vão, porque em vão foram. Apenas serviram para aumentar a dor. A
hostilidade. Valeria o sacrifício, valeria? O sol quente. O céu claro. A
vontade de urinar doía. Os rins doíam, sobretudo. O suor que sujo escorria. O
sal. O fel. O mau hálito. As lembranças também doíam. Herodes (Jesus ainda
bebê) mandara matar todas as crianças abaixo de dois anos. As mentiras
inventadas, a hipocrisia. Herodes não queria adorá-lo, não queria. E o Pai,
sabia? Fora cúmplice? Não fora tudo profetizado, não estava escrito? Doía. A
crueldade de Arquelau. Os avisos de Deus. As interferências. As tentações de
Satanás – tudo premeditado. Doía. Sua história não fora escrita por Si mesmo? A
morte de João feria e fazia doer. A cabeça ensangüentada de João. Sangue. Os
demônios. A lepra. Os fariseus, que tramaram sua morte. Hipocrisia. Ai de
Jerusalém! Doía, porque davam dízimo, conheciam as Escrituras, jejuavam,
oravam, mas não viviam segundo a justiça e a fé. Muito. Doía. Os judeus hostis.
As enganações doíam, e muito. Todas as dores possíveis nele se convergiam. O
tremor. A ira. O ódio. A vingança. As mortes dos que não estavam na Arca de
Noé. Doía a piedade e o conseqüente remorso que sentia, agora, só agora, pelos
não privilegiados do Pai. As crianças afogadas nas águas do dilúvio. As
crianças se debatendo contra as águas – doces ou salgadas, seriam? A compaixão
que nutria agora, e só agora, por Caim. O sofrimento de Jó era ele, Jesus, que
sentia, e doía, doía mais do que doeu em Jó. A fruta (amarga) que Adão comeu
doía o estômago, o seu. A liberdade, a esperança perdidas, o paraíso, a
felicidade perdidos – doíam, e era uma dor que feria. O pranto sobre a cidade
condenada. A figueira estéril. As profecias doíam. A ambição dos humanos. A
agonia passada. E, após todo o sofrimento, a sentença. Meu Pai. Este suor que
escorre e se mistura ao sangue, estas lágrimas que escorrem e se misturam ao
sangue, esta saliva que escorre e se mistura ao sangue, estes cuspes que
escorrem e se misturam ao sangue. As feridas. Os raios do sol nos olhos ardem,
doem. Ver a mãe chorando e nada poder fazer dói. Ver os irmãos chorando e nada
poder fazer dói. Ver os amigos, sobretudo os falsos, e nada poder fazer dói.
Ver os inimigos zombando e nada poder fazer dói. E o Pai, sabia? Fora cúmplice?
Não fora tudo profetizado, não estava escrito? Doía. Zombaria. Zombarias? Este
peso nas costas dói. O fardo pesado. Os pecados de todos. Os erros. Os desvios
de conduta. Os assassinatos. As vinganças. Os adultérios. As ingratidões. Doía.
As feridas. As traições. As armadilhas e provações. O fardo. Os tapas no rosto.
Os socos. Esta barba espessa e suja. Essa feiúra. Esta ausência. Trinta e três
anos de falta doem. Trinta e três anos de mentiras e maldades doem. As marcas
das correntes nos pulsos doem. Este zunido intenso nos ouvidos. Os zunidos,
conseqüência dos gritos nos ouvidos, doem. Esse riso cínico dói, e muito,
demais. As marcas profundas nas costas doem. As pernas cansadas, conseqüência
do longo trajeto com esta cruz pesada nos ombros, doem. E os tombos. Meu Deus,
afaste este cálice de mim. Afaste a onisciência de mim, afaste essa capacidade
de imaginar o futuro de mim. Afaste a lucidez de mim. Afaste este choro amargo
de mim. Afaste de mim este soluço convulso que ninguém vê. Pai, por que não
disseste antes que minha morte não era para todos? Pai, por que me enganaste?
Pai, que culpa têm os que não reconheceram nem reconhecerão como verdade o que
eu preguei? Pai, Tu me fizeste profetizar a traição de Judas. Pai, por que me
fizeste antever que Pedro me negaria? Se tudo continuar assim, entre ódios
privilégios injustiças rancores pesares mortes gratuitas, sobretudo por causa
dos seres à imagem e semelhança de Ti, ó Pai, renego a condição de Salvador. Se
for para eu ter remorsos eternos, renego, ó Pai. Pai, porque lhes perdoar o que
fazem se eles sabem exatamente o que fazem e mesmo assim continuam fazendo?
Essas zombarias. Se tu és o rei dos
judeus... Não és tu o Cristo?... Mas este nenhum mal fez. Mulher, eis aqui
o teu filho. Sim, filho, e eis aqui tua
mãe, chorando. Dor. Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste também
desamparo a Ti e aos teus. Vede, chama
por Elias. Tenho sede... Rãnnn. Este gosto acre. Ha-ha-ha. Sei, Pai, que sempre fizeste todas as coisas para os Teus
próprios fins, e até o ímpio para o dia do mal. Sei, Pai, que tudo acontece
para que as Escrituras se cumpram. Mas, Pai, que não seja feita mais a Tua
vontade. Por um segundo apenas quero ter vontade, apenas por um segundo.
E (talvez porque ainda doía) com a pouquíssima força que
restara enfim murmurou:
__ Pelos camelos...
Deus, perplexo, com toda a autoridade possível:
__ Quê?! – esbravejou.
__ Pelos camelos... came... eu... eu vou... morrer... pelos
camelos... – fechou os olhos e expirou.
Não escurecera. Nem escureceria.
* Este conto é uma das narrativas do livro Manicômio, de Rogers Silva, cujo lançamento será no dia 12 de agosto.
* Este conto é uma das narrativas do livro Manicômio, de Rogers Silva, cujo lançamento será no dia 12 de agosto.



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