Por Rogers Silva
(Chegam-se, calados e emocionados, perto um do
outro. Abraçam-se. Nada falam. Olham-se em silêncio. Livram-se,
lentamente, das vestimentas. A madrugada que se estende lá fora, aqui dentro,
no quarto, entra por meio do vento, pétala, da claridade, nítida, das estrelas,
métricas. Abraçados, os velhos sexagenários, enrugados, nus, posto que
sexualmente não excitados, se beijam.)
Cena
5 – À noite, um dia depois, na
sala da casa de Machado. Está sentado na poltrona, à espera.
Carolina – Conheci um tal de Policarpo Quaresma.
Machado – Carolina?... Que bom... Quem?
Carolina – Major Policarpo Quaresma, para ser mais exata. Muito animado, ele.
Parece criança. Ingênuo... Sua companhia tem me alegrado, ajudado a passar o
tempo.
Machado – Brasileiro?
Carolina – Sim. E daqui, do Rio de Janeiro.
Machado – Não conheci.
Carolina – Morreu, senão me engano, em 1894. Há 14 anos... Tinha menos de
cinqüenta anos.
Machado – Morreu de quê?
Carolina – Ué, Machado, quer agora falar de morte?
Machado – Curiosidade...
Carolina – Foi condenado à morte pelo governo de Floriano Peixoto.
Machado – Nunca gostei desse Floriano...
Carolina – Traidor da pátria... Diz que morreu injustamente. Na verdade, foi o que
menos fez enquanto vivo, diz: trair a pátria. Apaixonado pelo Brasil, ele era.
Machado – Triste fim.
Carolina – Muito. Foi muito ridicularizado, diz, por algumas idéias extravagantes.
Machado – Quais?
Carolina – Um dia, parece, escreveu um decreto para que se mudasse a nossa língua,
de português para o tupi-guarani.
(Machado de Assis
sorri um sorriso triste.)
Carolina – Engraçado, ele. Gosto dele.
Machado – Que bom...
Carolina – Tenho que ir.
Machado – Fale mais dos seus conhecidos do outro mundo
Carolina – Agora não. Depois.
Machado – Olhe para mim, pelo menos.
Carolina – Impossível.
Machado – Por favor... Apenas uma simples despedida... Necessito.
Carolina – Também queria, mas...
Machado – Tudo bem. Adeus.
Carolina – Até breve. Até amanhã.
Cena
6 – À noite, um dia depois, na
sala da casa de Machado. Três segundos após sentar-se na poltrona, chama:
Machado – Carolina?... Lembra-se daquele ano em que eu...
Carolina – Lembro...
Machado – Mesmo velhos, parecíamos crianças naquele dia.
Carolina – É verdade.
(Recordam-se...)
Cena 7 – 1900, oito anos antes. Carolina
se encontra sozinha em casa. No vidro do espelho, ela escreve, em cima, com uma
tinta líquida, o seguinte:
Em primeiro lugar, não há uma só alma, há duas...
(Depois, com os
mesmos dedos indicador e médio, Carolina, logo embaixo, continua)
...deu-me na veneta olhar para o espelho com o fim justamente de
achar-me dois
(Continua o
trabalho, as mãos e a roupa sujas da tinta preta)
Agora, é preciso saber que a alma exterior não é sempre a mesma
(E mais
abaixo, próximo à moldura envelhecida do espelho, a última frase)
...casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da
existência inteira (O espelho,
MACHADO DE ASSIS)
(Aproximadamente
uma hora depois, Machado de Assis chega. Ao olhar para o espelho, estranha. Olha
à esposa, querendo saber. O que é isso? Esses escritos?... – seus olhos e
atitudes parecem indagar.)
Carolina – Lembra-se? (ela pergunta).
Machado – De quê? (desentendido).
Carolina – De tudo isso que escrevi, que na verdade é
seu?
Machado – Sim. Mas... (ainda confuso).
Carolina – Uma homenagem a você.
(Ele ainda
não compreende. Carolina vai até o espelho. Logo abaixo à primeira frase (Em primeiro lugar, não há uma só alma, há
duas...), num espaço vazio entre a segunda, escreve)
Carolina e Machado
(E sorri.
Machado também sorri. Ambos sorriem, harmoniosos. Depois, ela, abaixo à segunda
(...deu-me na veneta olhar para o
espelho com o fim justamente de achar-me dois), completa)
E encontrei você
(Sorrisos.)
(Entre a
terceira (Agora, é preciso saber que a
alma exterior não é sempre a mesma) e
a quarta citação, preenche)
Meu amor,
saiba, é infinito
(E no final
(ela se ajoelha), perto da moldura e do chão, após (...casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da
existência inteira), termina)
Eu não desperdiçaria meu tempo distante de você
* Dia 26, aqui n'O BULE, confira a continuação da série Machado e Carolina.
** Este conto é uma das narrativas do livro Manicômio, de Rogers Silva, que será lançado no início de agosto.



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