09 março, 2012

Março em três fragmentos



“A natureza se regozija na natureza, a natureza comanda a natureza, a natureza conquista a natureza.” (Bolo, o Demócrito)

I

Varanda da casa, Josué lê o jornal de domingo. Chuva fina, preguiçosa. Cheiro de terra molhada. Uma pequena horta no jardim. Atrás, a mata. Sobre a mesa, aipim frito que Leonor acabou de trazer da cozinha. De lá vem também o cheiro da feijoada que logo mais todos comerão. Alessandra, deitada na rede, olha para Josué. Nada diz. Apenas sorri. E volta à leitura de um livro.

II

Noite morna. Dona Inês acende o cachimbo. Está na sua cadeira de balanço e gosta de contemplar o céu noturno sem lua, enquanto rememora passagens dos seus oitenta e sete anos vividos. A fumaça doce do que deixa de ser o fumo de chocolate alpino atravessa a varanda, entra na sala de jantar e percorre o longo corredor até sair da casa pela porta dos fundos na cozinha.

III

Gaivotas brancas sobrevoam a praia. A vegetação nativa, rasteira, pouco enverga com o vento que vem do mar. Há uma mulher, sozinha, sentada na areia perto da arrebentação. Os pés estão descalços e a cada quatro ondas, uma os encobre. Ela observa o sol no horizonte, que subjuga março em vermelho sangue.

2 comentários:

Christiane Angelotti disse...

Sempre preciso na arte de dizer muito em poucas palavras.
Parabéns!

Beijo

Chris Angelotti

Gustavo disse...

Muito bom o blog .. seguindo .. e já está na minha lista de blogs no meu ..