Por Rogers Silva
Muito se discute sobre os motivos da pouca (em quantidade e qualidade)
leitura no Brasil. Alguns, inclusive, apontam uma crise da leitura. Outros, por
sua vez, afirmam categoricamente que o número de leitores no país aumentou
substantivamente nos últimos anos (afirmação baseada no aumento da vendagem de
livros). Mas... será? Independente de quem esteja certo ou errado, este texto
se propõe a discutir sobre as possíveis causas da pouca leitura no Brasil e
algumas estratégias para diminuir esse problema (que alguns, sobretudo os
reacionários, não vêem como problema, mas sim como solução, especialmente para
os seus propósitos).
Em primeiro lugar é possível afirmar que, sem medo de errar, para que a
leitura seja eficaz ela deve ser estimulada lá atrás, ainda na infância. E como
nem sempre isso acontece, o país acaba crescendo
sem curiosidade, vontade ou competência para ler. Ou seja, a própria relação
que o adulto (não) possui com a leitura implica na relação da criança com a
leitura. E como o adulto no Brasil não possui grandes vínculos com ela (de
literatura, então!), é fácil entender porque a criança, o pré-adolescente, o
adolescente e o jovem não têm lá muito interesse por livros.
Abaixo três alternativas (estratégias) discutidas e propostas por
muitos especialistas:
A escolha do livro: não se deve, de maneira alguma, impedir
leituras ditas inapropriadas (best-sellers, por exemplo). É preciso, sim,
orientar a criança em suas leituras, respeitando sempre suas vontades. Deve-se,
assim, preparar a criança para o mundo através das leituras, mostrando e
criando oportunidades que desenvolvam seu senso crítico, pois um bom leitor
torna-se um pensador. E o país necessita, e muito, de pensadores, e não apenas
de repetidores de pensamentos alheios.
O livro como lazer: encarar a leitura, a princípio, como prazer
(lazer, entretenimento) é mais fácil para que ela se torne um hábito, o que nem
sempre acontece quando ela é tratada de maneira tradicional, obrigatória, com as
famigeradas posteriores avaliações. Alguém ainda duvida disso? Duvido que
duvide.
Informação e arte: enquanto a primeira é denotativa, a segunda é
conotativa e, como a literatura é uma arte (a arte das palavras), é preciso
trabalhá-la de forma acessível, dando liberdade de interpretação às crianças. A
criança possui seu próprio cérebro e, acreditem!, ele é capaz de pensar.
Já que estamos falando de crianças, falemos então das...
Características da obra literária infantil
1) Aquele que se dispõe a ler, sugerir, trabalhar com a obra infantil, não
deve de forma alguma diminuir seu valor frente à obra dita adulta. São gêneros
diferentes: os públicos, a linguagem, os propósitos são distintos. Ao contrário
do que se pensa, é possível sim aliar simplicidade e complexidade (vide A bolsa amarela, de Lygia Bojunga Nunes).
O mesmo (mas ao contrário) acontece em livros para adultos: muitos conseguem
ser herméticos e medíocres ao mesmo tempo.
2) As ilustrações, claro está, podem ajudar a criança a entender a obra,
sobretudo a que porventura não sabe ler. Essas ilustrações devem dar margem à
imaginação, à recriação, transcender o próprio desenho. Porém, na medida em que
a criança cresce, as ilustrações diminuem e, por outro lado, as palavras
aumentam (em quantidade, e não em tamanho). OBS.: Desenhos que traduzem
exatamente o que o texto está dizendo, desenhos que não dizem nada em relação
ao texto são equívocos que devem ser evitados – essa é uma grande preocupação
dos especialistas em leitura e literatura infantil e infanto-juvenil.
3) É óbvia a afirmação, mas, ainda de acordo com os especialistas, as
editoras devem se preocupar com o tipo de papel, capa e forma de acabamento da
obra, pois são aspectos muito importantes do livro infantil.
4) A indústria cultural afeta enormemente os tipos de livros lançados. Os
adultos, muitas vezes, não considerando a criança, impõem-lhe valores e dominam
o discurso literário. É preciso que os adultos que queiram estimular a leitura
em crianças tenham consciência que cada idade possui suas características, suas
limitações e suas visões de mundo. E há livros para tudo quanto é gosto.
Por outro lado é importante...
Ler os clássicos
Clássicos são obras que, por vários motivos (sobretudo pela sua qualidade
e profundidade inquestionáveis), se tornaram cânones e que, atualmente, ainda
são dignas de apreciação e estudo. Ler um clássico na idade adulta, mesmo que lido
na juventude, é sempre uma nova leitura, uma descoberta. O texto é o mesmo, mas
a mentalidade e o amadurecimento do leitor se modificaram, e por isso que em
toda releitura há uma nova visão, novas descobertas, coisas a serem
apreendidas. Clássico é o livro que não se esgota. É importantíssimo lermos e
sugerirmos clássicos a jovens leitores, pois autores como Machado de Assis, Cervantes,
Shakespeare, Sófocles, Balzac, entre outros, são a base da literatura
universal.
No entanto, para as crianças (ou pré-adolescentes, ou adolescentes) é
mais sensato a sugestão/indicação/leitura dos clássicos adaptados (ou dos
clássicos da literatura infantil), porque somente com o entendimento do que
está sendo li(n)do é possível embarcar na...
Aventura literária
E por falar em aventura literária, sabe-se que na literatura infantil e
infanto-juvenil brasileira o clássico dos clássicos é o escritor Monteiro
Lobato, que consegue ser ao mesmo tempo de leitura prazerosa e crítico, de alta
literariedade, questionador. Monteiro
Lobato instiga o leitor a questionar valores da época e de agora. Diversão
garantida! Aprendizado, idem. Eis a derradeira sugestão deste texto: ao invés
de comprar batom, LEIA Monteiro Lobato. A aventura será inesquecível.



4 comentários:
Parabéns pela reflexao e sugestoes. Continuando: ler na infância é um prazer total e nao se deve deixar de lado gibis e historias em quadrinho, merecedoras de cuidados e investimentos editoriais tanto maiores quanto mais a populaçao do pais é alfabetizada.
nao atrapalha em nada, pelo contrario, ajuda.
Concordo com você que ler Monteiro Lobato é uma aventura inesquecivel e formadora, e que a obra prima inquestionavel dele é a literatura infantil. Mas na obra para adultos tem essa maravilha de conversa divertida e apaixonada por literatura que é a Barca de Gleyre - 40 anos de correspondência com Godofredo Rangel. Durou tanto que eles nem queriam mais se encontrar, até ja preferiam escrever...de tao boa que tinha ficado a conversa.
um abraço,
Regina
Realmente, quando os pais encaram a leitura como uma opção de lazer, a criança incorpora o mesmo hábito. Minha filha me vê sempre com um livro na mão, e agora com 10 anos, também é uma leitora apaixonada e até fez um blog para escrever sobre os livros que lê.
Foi um prazer conhecer seu blog, adorei a postagem.
Beijos...Elis Culceag.
Comentar, o quê? Aqui só me resta concordar. Texto primoroso.
Duas palavras: Concordo completamente.
E... Leiam muito O BULE BLOGUE!
Abraços.
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