01 Maio, 2011

Nem todo leitor é escritor (Ou sobre a literatura escrita com sangue) - Malagueta #12

Por Rogers Silva

Nem todo leitor é escritor é uma premissa, a meu ver, verdadeira porque óbvia (alguém duvida de que nem todo leitor é escritor?), embora muitos insistam em desafiá-la e, assim, desafiar a lógica. Aqui, poderíamos acrescentar: Nem todo leitor é escritor de literatura, a fim de que nossa discussão fique mais clara e mais delimitada. Afinal, literatura é o que mais interessa ao BULE e aos seus leitores, não? Sim.

Ler livros, ou ler alguns livros, ou – pior ainda – ler poucos livros não dá a ninguém substância para se tornar um escritor. Mas que p...! de substância é essa? A meu ver, muito mais do que leitura, o escritor (de literatura) precisa de: sensibilidade, senso estético, senso crítico, conhecimentos (aí vale o de mundo, o da vivência/experiência (o que de forma alguma pode se confundir com maturidade ou velhice), o autoconhecimento, o conhecimento do humano, o conhecimento (o domínio) da linguagem, e até o conhecimento enciclopédico, embora esse não seja pré-requisito essencial). Nas veias do escritor precisa correr (e de lá escorrer) sangue, e não água. Ou seja, indivíduos tábua-rasa (ou água-rasa) podem até se tornar escritores, mas provavelmente serão escritores medíocres, rasos, superficiais, porque escreverão cópias, ou cópias de cópias, ou livros-modelo, best-sellers de auto-ajuda, histórias insossas, bosta rala que escorre pelos dedos e não deixa marca alguma.

OBS: É preciso deixar claro que escrever com sangue e escrever literatura de entretenimento, ou auto-ajuda, ou best-seller, não são coisas excludentes. É possível, sim, escrever romances policiais interessantíssimos, por exemplo. É possível, sim, escrever auto-ajuda complexa, que não seja repetição ad nauseam de lugares-comuns. É possível, sim, escrever uma obra profunda e ela se tornar um best-seller (vide Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez).

Escritor que escreve tão-somente sobre livros, ou sobre a literatura, ou sobre a arte da escrita, ou histórias que nada possuem de humano, só escrevem por que: 1) aprenderam a imitar bem; 2) a seguir conforme os modelos; 3) ou porque não possuem a sensibilidade ou competência o bastante para olhar ao lado e escrever sobre o mundo e os humanos que o rodeiam, sem para isso precisarem de estereotipar tanto o mundo quanto os seus habitantes. Não há nada mais irritante do que personagem estereotipado (não digo quando isso é feito conscientemente, claro). Não há nada mais sem graça do que uma história que não arrebata, surpreende, incomoda, proporcione a sensação de soco no estômago. Prefiro mil vezes um (e apenas um) Campos de Carvalho com sua lua que vem da Ásia[1], que me arrebatou e incomodou, do que dez (ou mais) Paulo Coelho, que nem “cosquinha” me fez.

E escrever com sangue, caro leitor, não tem nada a ver com escrever difícil, ou escrever pedante (ao contrário, normalmente são os que não escrevem com sangue que escrevem pedante), ou escrever hermeticamente. Escrever com sangue significa escrever sobre e com a vida, escrever sob dores estranhas no estômago, escrever extasiado, escrever sob efeito de uma droga chamada deslumbramento, escrever sobre a condição humana, escrever sobre o humano, escrever chorando (é uma imagem que não precisa ser levada ao pé da letra) pois escreve-se sobre o mundo (que anda tão complicado[2]) e sua literatura quase nada pode contribuir para mudá-lo, infelizmente. Escrever com sintaxe invertida é fácil; algum conhecimento da linguagem basta possuir. Difícil é escrever com sangue, porque isso é para poucos, para os raros, para os loucos.

Eu duvido de um escritor que não seja pelo menos um pouco louco, mas de uma loucura lúcida, sem exageros, implícita, que não seja forjada. Dispensemos a loucura de butique de hoje em dia. Eu duvido que Fernando Pessoa, ou qualquer grande poeta, escrevia fingindo o tempo todo que era dor se dor não sentia[3]. Fernando Pessoa, antes de ser poeta, era um ser de carne, osso e entranhas. E essas últimas, creio, doíam tanto às vezes que ele precisava escrever, como se escrever fosse um remédio de tarja preta, ou o emplasto de Brás Cubas[4], que tudo curaria se um dia tivesse sido fabricado. Tanto viver quanto escrever doem. Ou deveriam doer. Se não dói, vive-se num conto de fadas. Se não dói, escrevem-se contos de fadas. Os contos de fadas nos enganam descaradamente e – como diria um corinthiano – um dia a casa cai, mano.

E é dessa literatura nascida da dor[5] que precisamos no momento atual, porque alguns já não suportam mais (eu não suporto mais) a literatura rasa, repetitiva, sem criatividade (tanto conteudística quanto estrutural), os contos de fadas modernos, ou a literatura pretensiosa mas ininteligível, pedante, parnasiana pós-moderna, elitizada (porque feita para acadêmicos), que tem saturado as nossa estantes e as nossas mentes. Precisamos de uma literatura mais humana, feita por humanos, e não de uma literatura concebida em laboratório, seja no laboratório-editora ou no laboratório-academia. Literatura rica é aquela criada no laboratório-entranhas do escritor. É dessa que preciso. É dessa que precisamos.



[1] A lua vem da Ásia é um dos romances mais conhecidos de Campos de Carvalho.

[2] “Se todo animal inspira ternura, o que houve, então, com os homens?” (Guimarães Rosa)

[3] Autopsicografia, de Fernando Pessoa: O poeta é um fingidor. / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente. // E os que lêem o que escreve, / Na dor lida sentem bem, / Não as duas que ele teve, / Mas só a que eles não têm. // E assim nas calhas de roda / Gira, a entreter a razão, / Esse comboio de corda / Que se chama coração.

[4] Leia Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.

[5] Alguns livros escritos com sangue: A lua vem da Ásia e Chuva imóvel, de Campos de Carvalho; A rosa do povo, de Carlos Drummond de Andrade; Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis; Sobre heróis e tumbas, de Ernesto Sábato; A noite escura e mais eu, de Lygia Fagundes Telles; A hora da estrela, de Clarice Lispector; Memorial do convento e O ano da morte de Ricardo Reis, de José Saramago; Fogo morto, de José Lins do Rego; Angústia, de Graciliano Ramos; Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez; Bichos, de Miguel Torga; Emissários do Diabo, de Gilvan Lemos.

15 comentários:

. disse...

Concordo, Rogers. É preciso sentir a dor e a angústia da palavra que pede para nascer, com lágrimas, às vezes, mas sem fórmulas. E como diria Carlos Heitor Cony: "Para escrever é preciso um pouco de tristeza. Nenhum homem feliz faz uma grande obra."

Um abraço,
Ane.

Vera Helena disse...

Entendo sua crítica, é legítima, mas não sei se concordo muito com o texto. Primeiro, não acredito que estamos saturados de academicismos, de falta de criatividade, de literatura feita em laboratório. Ao menos eu, tenho lido o oposto disso, vide Ana Paula Maia, Ivana Arruda Leite, entre outros autores, muitos, completamente desconhecidos, mas todos muito bons (incluo aqui escritores deste site e do Cronópios). Creio que seria interessante uma reflexão sobre o texto literário em si, pois, a meu ver, nele habita com efeito o escritor.
Por outro lado, parabéns pelo texto, provocativo.

Abraços

Vera

pianistaboxeador21 disse...

Gostei muito Rogers, uma provocação certeira. Que vem ao encontro do que eu também penso sobre literatura e escrita.
Parabéns e um grande abraço,

Anônimo disse...

Parabéns pelo texto super bom.De fato ser escritor é para poucos.Abraço

Laura

Literatura sem fronteiras – niltomaciel@uol.com.br disse...

Rogers, você conseguiu escrever uma lição de verdade, como se estivesse se dirigindo a estudantes, principiantes, adolescentes. Para os que se iniciam na literatura, primeiro como leitores, e depois, se for o caso, como escritores. Como os blogues são acessados por jovens, na sua maioria, você acertou na mosca.

Chris Araújo Angelotti disse...

Adorei, Rogers!

Acho que como tudo na vida não existe uma receita. Mas a literatura que eu gosto e que sonho em fazer é bem o que você descreveu.

Quero sentimento em forma de palavras.

Acredito que existam pessoas que nascem escritores. Alguns até assumem que lêem pouco e carregam uma bagagem e um olhar diferenciado.

Há os que devoram livros porque amam e escrevem porque necessitam.Nem sempre bem.

Há também aqueles em que escrever é uma necessidade, como respirar. Há o que escrevem em determinados momentos.

Realmente ler não faz de ninguém escritor e nem precisaria,não é? Ler só garante conhecimento, sonhos...

Escrever é muitas vezes sofrer, morrer, renascer e isso nem todo mundo compreende. Não nos faz melhores e nem piores. Talvez pessoas com uma sensibilidade diferenciada, que pode ser bem conduzida ou auto-destrutiva.

Gosto muito do que Nietzsche escreveu em 'Assim Falou Zaratustra': É preciso ter caos ainda dentro de si para poder gerar uma estrela brilhante" resumo assim, a vida de um escritor.

Abraços,

Chris

Anônimo disse...

Apesar de que surja alguém para contestá-lo, pois a percepção das pessoas não são iguais. Botando Paulo Coelho no meio, os escritores atuais, aparecendo aos montões, são simplesmente intragáveis... Se me permitir, deixe-me assinar em baixo do que o amigo escreveu!...
contato@radio-cidade.com

Dante Martella disse...

Muitos escrevem realmente bem, conhecem a gramática. Podemos tomar como exemplo a Vera Fisher, que de repente "se descobriu escritora", e a Ana Maria Braga, que, se não me engano, está para concluir seu segundo livro.

Acontece que escrever bem não é escrever literatura. A literatura necessita da transgressão da gramática quando necessário, uma inovação aqui e alí, deixando o texto mais humano, mais vivo. Daí a necessidade de ser sensível. Não obstante acredito que tal qualidade se construa de acordo com o a labuta, conversação com outros escritores, mesa de boteco e intermináveis anotações nos ditos caderninhos que carregamos no bolso. Creio que seguindo isto, estudando e lendo muito, estaremos no caminho de encontrar a pulsação narrativa que está dentro de cada um; e depois de anos, reparando parágrafos, modificando ideias, mudando o discurso e todas as possibilidades do texto, é possível que estaremos áptos a profissionalizar um poema, um conto ou um romance.

Acho que falei tudo o que você falou, mas de um outro modo, quem sabe... Sinto obrigação de contribuir quando me deparo com textos assim, pois não consigo mais engolir essa banalização, onde todos são "escritores" e "artistas".

P.S.: Sou totalmente contra a produção em série e/ou a prazo. Também não acredito em talente inato; e se existe, é preciso lapidá-lo, e isso se faz com muito desodorante!

Márcia Luz disse...

Gostei bastante das metáforas que você emprega para caracterizar o ato da escita e, claro, dos exemplos que você traz. O texto é bastante didático. E escrito com sangue!

Gosto muito de um conto machadiano, Cantiga de Esponsais, do qual me lembro sempre que leio alguma coisa e digo para mim mesma "é justamente o que penso, na voz de outra pessoa".

Parabéns, Rogers!

Roberto Denser disse...

Adorei o texto e as referências que o mesmo contém (especialmente aos loucos e raros de Hesse), e gostaria de citar aqui uma frase de Dostoiévski (na minha opinião, um dos maiores escritores de todos os tempos): “Para escrever bem é preciso sofrer, sofrer e sofrer”.

Acho que é por aí.

Ah, acabo de lembrar do Rocky Balboa: "No pain, no gain". ;-)

Roberto Borati disse...

é preciso se cortar para fazer palavras.


e concordo em tudo com o autor.

abraços.

Rogers Silva disse...

Obrigado a todos pelos comentários. Fico feliz que a grande maioria dos comentários foram positivos à idéia de que literatura é escrita com sangue.

Beijos e Abraços!

Mônica Cadorin disse...

Adorei o texto! Faz a gente parar para pensar no que está fazendo, no que está buscando com a literatura. Um texto escrito com sangue, para fazer outros sangrarem também.
Em tempo: dependendo do momento da história, escrevo com lágrimas também :)
Um abraço

Pastor / Filósofo disse...

Toda leitura, por menor que seja sempre vai gerar o desejo de escrever algo. Talvez não com a clareza e a destreza de um hábil escritor literário, mas se refletirmos bem, quase todos começaram com alguns rabiscos em agendas, ou diarios e ao tomar gosto, se tornaram, excelentes escritores, pois aqueceram o sangue de tal forma que fluiram palavras cheias de emoção e calor humano.Continue sendo original em suas observações, parabens.

Rogers Silva disse...

Olá, Mônica Cadorin e Pastor Rodrigo, obrigado pelos comentários pertinentes e aprofundados.
Abraços!