25 Fevereiro, 2012

Luz vermelha que se azula

Por Nilto Maciel 

Quase todo dia Dirceu saía de casa à tarde e só voltava à noitinha. Sentava-se num banco da Praça do Ferreira para sentir no rosto o tempo em que aqueles ventos lhe pintavam a alma de ventura. E via, extasiado, o rebolar-se das ancas das moças faceiras. “Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração”. Em casa, Marília sentava-se no sofá para ver a novela da tarde na televisão. Nos intervalos, chamava Isaura e dava ordens: fosse ver cartas e cobranças na caixinha de correio; passasse pano molhado no chão; preparasse o jantar. Dirceu perambulava pelas ruas do centro, a ver navios ancorados nos olhos das meninas. Conhecia todas as comerciárias, que cumprimentava sorrindo, e lhes dava beliscões nos braços roliços. Vez por outra comprava cuecas, lenços, vidrinhos de perfume. Isaura se esfalfava de tanto ir e vir. Dona Marília se inquietava no sofá e corria para o escritório do marido. Vai, menina, deixa de ser lerda. Abria gavetas, como se abrisse pernas; folheava livros, como se desvendasse vaginas. Nunca, porém, soube onde se escondia o caderno secreto de Dirceu. Seria um diário? Naquela idade escrevendo diário? Só se estivesse ficando doido. Ao voltar, ele primeiro vistoriava o escritório. E gritava: Isaura, você andou mexendo nas minhas coisas? A moça se apequenava mais ainda. Encolhia-se toda, como se quisesse desaparecer. Vá embora. Fechava a porta, abria a gaveta, retirava o caderno de capa azul, lia uns trechos. “Eu tinha apenas 25 anos de idade e toda a irresponsabilidade do mundo. Por toda parte só se ouviam louvores ao Brasil e à seleção de futebol. O tri-campeonato se aproximava”. Fazia tudo ao contrário, aborrecido: guardava o caderno, fechava a gaveta, abria a porta. Marília compulsava álbuns de fotografias. Olhe os meninos, Dirceu, como eram lindos! É, mas hoje são homens e mulheres feitos e criam seus filhos. Deixe de lembranças bestas. E se afundava no sofá, cansado. Não ia tomar banho? Ia, quando sentisse vontade. Isaura passava por eles a caminho do jardim. Não passaria dele, do portão. E nele não se perderia, entre as poucas roseiras. Nunca saía de casa sem autorização ou mando. Veja se os passarinhos sujaram tudo de novo.          
                                                                                              ***
O que Dirceu anotava no caderno ninguém sabia, porque a cada frase nova de sua história se seguiam outras de alguma prosa estranha: “Evelina nunca mais a vi nem verei. No pátio do colégio os padres corriam em gritaria. Meninos se agitavam ao redor de bolas”. O caderno voltava ao fundo da gaveta e Dirceu se punha a manusear um dicionário. “Embriagado, saí pelas ruas sem rumo. Queria aventuras de carnaval. Servia qualquer mulher nova”. Apertava a cabeça, como se fosse chorar. Iam para anos aquelas anotações, aquele tormento. Almoçava, ligava a televisão. O presidente da República se preparava para conhecer Moscou. Marília coçava a cabeça, olhava de soslaio para o marido. Vai sair hoje? Ele se fazia de desentendido: parece que viaja amanhã. Isaura passava diante deles, pano pendurado na mão. No exato momento em que a repórter bonita falava. Vê se desaparece da sala, menina.
                                                                                                            *** 
Dirceu saía da Praça do Ferreira pela Rua Guilherme Rocha no rumo da Praça José de Alencar. Topava com ambulantes, livrava-se de transeuntes e bêbados, postava-se diante do teatro. Ainda assistiria a uma peça de fama com Marília. Bastava criar coragem. Sai do meio, velho. Meninos pediam moedas. Meninas coçavam cabeças cheias de piolhos. Dirceu deixava a praça e alcançava a calçada da Rua Liberato Barroso. Ia de novo para a Praça do Ferreira. Em casa, Marília caçava borboletas no jardim. Vem cá, Isaura, vem ver que maravilha. O sol da tarde queimava os cabelos claros da sertaneja. Fica aqui, cuida das plantinhas, que eu preciso ver uns álbuns. Abria a porta do escritório, trancava-se e se punha a folhear dicionários. Num papel lia: “Os pássaros bicaram minha saudade. Por acaso encontrei a filha de Ester na rua. Vestia minissaia colorida, de carnaval, não usava sutiã e se abraçou a mim. Nos matos andam perdidos estranhos homens de palha. Você é a Evelina, aquela menininha magra e feia? Como cresceu! Espantalhos de outros tempos. Ela cambaleava. Andou bebendo? Só um pouquinho? E está indo para onde? Para qualquer lugar. Eu vou para o clube. Então vamos juntos”. Ora, ali estava o pecado. Quis retirar o papel de dentro do livro. Ou Dirceu estaria preparando uma armadilha? Fechou o livro grande, tentou abrir a gaveta. Por que aquela coisa fechada a sete chaves?
                                                                                                  ***
De volta para casa, Dirceu passava pela padaria e comprava pães quentes. Isaura se afogueava diante da panela. Marília se dedicava às fotos e fofocas de uma revista, esparramada no sofá. Você sabe daquela sua prima de nome Ester? Ele nem olhou para ela. Chamou a doméstica para receber os pães. Para que desenterrar defunto? Ah! ela morreu? Faz tempo. Tinha uma filha chamada Evelina? Ele se perturbou e caminhou rápido para o banheiro. O que queria dizer Marília? Trancou-se e urinou pouco. Aquela conversa o deixava nervoso. Como não falar mais naquilo? Precisava inventar logo uma história maravilhosa. Um assalto no centro. Saiu a puxar o zíper da calça. Você não sabe o que vi agora, Marília. Pois quase morri de susto. Dois assaltantes passaram por mim correndo. Pôs-se a apimentar a história. Olhos arregalados, Marília examinava aquele homem mentiroso. Agarraram o homem por trás. Isaura apareceu: iam jantar pão com sopa?
                                                                                                    ***
Dizia para Marília que escrevia um romance. Ora, você nunca foi disso. Passou a vida toda lendo códigos. Sem ter o que fazer, pensei em escrever uma história. Estou inventando tudo. Nada vai ser real. Saía depois do almoço e só voltava à noitinha. Passava horas a perambular pelas praças e ruas. Fui à Gentilândia. Fazia tempos que por lá não aparecia. Está tudo ou quase tudo como antes. As mesmas casas, as mesmas árvores. Talvez as mesmas pessoas. Isaura se apresentava calada: falta algum tempero? Acabou-se o sol. Riam. O sol não, talvez o sal, menina maluca.
                                                                                                    ***
Alta noite, Dirceu acordava, abria a geladeira, bebia água e corria para o escritório. “O que aconteceu não lembro mais. Bebemos muito e dançamos”. Marília dormia ou fingia dormir. Do dicionário aberto saltavam palavras de todos os tamanhos. “Os pequenos seios dela roçavam em meu peito”. Talvez fosse melhor escrever “alisavam meu peito”. Olhava pelo buraco da fechadura. Talvez Marília o espionasse. “Eu pensava em minha prima Ester. E Evelina só tinha 15 anos. Quase uma menina. Não podia, não devia me envolver com ela. Mas nos envolvemos”. A caneta suava a mão. Um grito na rua lembrava os perigos soltos na cidade. “A noite avançava, todos estavam bêbados, ninguém via nada. Aleguei vontade de descansar e saí no rumo de umas árvores”. Mais seca a boca. Mas, se fosse à sala de jantar, Marília acordaria. “Casais se abraçavam, se beijavam, se despiam. Sentei-me no chão, junto a um muro. Não havia luz por perto. E ali tudo se consumou”. Como tirar aquilo da memória? Havia anos aquele remoer contínuo de pequenos gestos. “Chegada a manhã, ela dormia no chão. Acordei-a. Precisávamos ir embora”. Precisava rasgar aquilo, queimar aquele caderno, aquela confissão medonha. “E nunca mais a vi. Soube de sua morte um ano depois. Escorraçada de casa pelo pai, refugiou-se na casa de uma amiga mais velha, sustentada por um homem casado. E lá tentou praticar aborto. No entanto, o bebê nasceu. Ela, coitada, não suportou o suplício, a hemorragia”. A sede crescia. Vontade de engolir a noite, a Lua, a chuva que viesse. “Fui embora pra bem longe. Ninguém nunca soube do nosso encontro carnavalesco, acredito. Porque ninguém jamais me falou disso. Nem Ester, nem os filhos dela, nem meus pais. Agora, passados tantos anos, quero saber de minha filha. Mas como e para quê? E se ela for essa menina que me chama de Seu Dirceu? Se for essa Isaura que cuida do nosso jardim, prepara nossa sopa, lava minhas cuecas?” Os olhos de Dirceu se fecham. Sente dores na nuca, no peito, na alma. E se tudo aquilo fosse mentira? Se estivesse apenas imaginando tragédias? Ainda viu uma luz vermelha que se azulava e se amarelecia e se esverdeava. E não teve tempo de queimar o caderno. Nem de pedir perdão a si mesmo.

 * Este é o quarto  conto da primeira parte do livro Luz vermelha que se azula, de Nilto Maciel.

24 Fevereiro, 2012

Literaturas em Rede


Queridos e fiéis leitores d’O BULE,

todo dia 24 de cada mês lançávamos uma edição da campanha CorraAtrásDessesLivros. Ela será, hoje, extinta, mas suas edições passadas permanecerão em nossas páginas (acessa-a clicando no banner do lado direito). Vamos substituir a campanha CorraAtrásDessesLivros, que tanto sucesso fez por aqui, por uma nova campanha: Literaturas em Rede. Todo dia 24, então, você tem um compromisso marcado: de acessar O BULE para ver as novidades e atualizações dessa nova campanha. E para conhecer melhor o Literaturas em Rede, eis algumas explicações.

Literaturas em Rede, como o nome indica, é uma campanha que objetiva reunir o máximo de blogues e sites (individuais ou coletivos) de literatura. O objetivo é, com a campanha, reunir num mesmo local (e em rede) pessoas com afinidades em comum: o texto literário e tudo que gira em torno da literatura.

A campanha Literaturas em Rede funcionará em três frentes:

  1. Parcerias entre blogues e sites coletivos & O BULE (clique para conhecer melhor as especificidades desse tipo de parceria)
  2. Parcerias entre blogues e sites individuais & O BULE (clique para conhecer melhor as especificidades desse tipo de parceria)
  3. Rede de blogues e sites (individuais e coletivos), o Literaturas em Rede.

Embora inspirada na Culturas em Rede do site Página Cultural, essa campanha possui características próprias.




Como participar?

Para participar será necessário o registro na rede, AQUI. A partir daí, os seus textos (postagens do seu blogue ou site) serão mostrados automaticamente em outros blogues e sites participantes, entre eles O BULE, formando assim uma imensa rede de blogueiros, autores, leitores, críticos literários, professores, amantes da literatura.


Quem pode participar?

Qualquer site ou blogue de ou sobre literatura pode participar, desde que:
  • Seja atualizado frequentemente com textos, sobretudo, mas também com imagens e/ou vídeos.
  • Tenha pelo menos 1 (um) ano de existência. OBS: É o tempo mínimo, acreditamos, para que um site/blogue reúna conteúdo e, em conseqüência, possa ter seu conteúdo apresentado em outros blogues/sites.
  • Não publique pornografia.

Todos os inscritos serão analisados: o sítio que não obedecer a essas (poucas) normas não será aceito na Rede. O sistema garante que o seu site ou blogue receba mais visitantes do que aqueles que enviará para a Rede. Ademais, uma vez inscrito você poderá a qualquer momento acessar as estatísticas do seu site/blogue através do painel administrativo do sistema.


Como se inscrever?

Todo processo é muito simples e qualquer pessoa pode efetuar os passos.

O responsável deve registrar-se no 2leepLiteraturasEmRedes inserindo a URL/link do seu site ou blogue. A partir desse momento o 2leep irá selecionar, automaticamente, o seu feed de conteúdo.

Em seguida, você deverá criar um widget com o design que achar mais adequado para instalá-lo em seu site ou blogue. Ele poderá ser inserido embaixo das postagens, nas barras laterais ou até mesmo nos cabeçalho do seu site/blogue. A escolha é sua! Esse widget receberá artigos (postagens) da rede Literaturas em Rede em seu espaço e, em conseqüência, outros sites e blogues também receberão imagens (com título) de postagens do seu blogue ou site, criando assim uma grande rede de pessoas com afinidades em comum: a(s) literatura(s).

Veja abaixo um exemplo de um blogue com widget embaixo das postagens:



Inscreva-se no Literaturas em Rede!



Está com dúvidas ou dificuldades para registrar o seu site no Literaturas em Rede? Conheça todo o processo passo a passo AQUI.


Banco de dados da Rede

E para aumentar ainda mais os fios da Rede, criamos um questionário para você, interessado em participar da campanha, preencher. Nele, você pode deixar os seus contatos (e-mail, MSN, Skype), os seus sítios (blogue/site) e suas redes sociais (Orkut, Facebook, Twitter, canal do Youtube etc.) para que os outros integrantes da Rede (os que também preencherem o questionário) possam entrar em contato com você e te seguir. Como assim? Mas... Não se preocupe! Algumas normas e regras são importantes...

  1. Apenas pessoas que preencherem o questionário terão acesso ao banco de dados. Esse acesso precisa ser requerido através do nosso e-mail (coisaprobule@yahoo.com.br) ou pelo Formulário de Contato (Assunto: Requerimento/Literaturas em Rede). Em hipótese alguma esse banco de dados será disponibilizado para quem não solicitá-lo. E lembre-se: só pode solicitá-lo a pessoa que também faz parte da Rede (do banco de dados da Rede), ok?
  2. Todos os campos do questionário são opcionais. Ou seja, você apenas preenche aquele campo que lhe interessar. No entanto, para que você tenha direito e acesso ao banco de dados você deve preencher – no mínimo – 50% do questionário.
  3. Com os dados em mãos, sugerimos não enviar, sem permissão do destinatário, e-mails em massa, os famosos spams. Antes de enviar qualquer e-mail, mesmo que sobre literatura, peça permissão. Se não for concedida a permissão ou se seu e-mail não for respondido, retire o contato da sua lista.
  4. Ao preencher o questionário, parte do pressuposto que qualquer outra pessoa, também integrante da Rede, possa adicioná-la no Orkut, no Facebook, segui-lo no canal do Youtube, no Twitter etc. Esse é o maior objetivo da Rede: integrar pessoas com interesses em comum, a saber, escritores, leitores, críticos literários, professores de português/redação/literatura, amantes de literatura. Por outro lado, porém, é de direito da pessoa não aceitar nenhum convite que lhe for solicitado.


Para preencher o questionário, basta clicar AQUI.


Promoção!

Todos os integrantes do banco de dados da Rede concorrerão a uma caixa com 5 obras literárias. São elas: 
  1. Asfalto, obra foto-poético coletiva
  2. Todo dia me atiro do térreo, de Lula Falcão
  3. Odara, de Márcio Paschoal
  4. Devaneios literários, de Mariana Collares
  5. A dança dos desejos, Opus 13, de Esdras do Nascimento.

A promoção é válida até 24 de março.
O sorteio será divulgado n’O BULE e em seus meios de divulgação: Twitter, Orkut, Facebook etc. O ganhador será contatado por e-mail e terá uma semana para enviar o seu endereço completo. Vai perder essa chance?


A Rede no Twitter

Como complemento ao Literaturas em Rede, de forma a aumentar ainda mais a rede de leitores, escritores, críticos literários, professores, amantes de literatura, temos uma sugestão para quem usa o Twitter.

Ao postar algo em seu Twitter relacionado à literatura (tão-somente à literatura), use a tag #letras365. Acredite, muitas pessoas já usam essa tag. Entre também nessa rede! Quanto mais pessoas usarem a tag, mais a literatura será divulgada e, em conseqüência, mais pessoas com as mesmas afinidades você conhecerá (é só clicar na tag e viajar pelos posts...). E não se acanhe, também, de seguir todos aqueles que usam a tag. Ao fazer isso, estará seguindo uma pessoa tão apaixonada pela literatura quanto você e, de quebra, essa pessoa – ao perceber que você também é um aficcionado – provavelmente também o seguirá, aumentando ad infinitum a Rede e os seus contatos. Não é legal estar conectado com pessoas com os mesmos interesses? Não é para elas que você, autor, escreve? Não são elas que você, caro leitor, lerá? Não são os livros delas que você, crítico literário, resenhará? Não são com elas que você, amante da literatura, irá querer conversar sobre o mais novo best seller? Então se envolva e deixe se envolver nessa rede também!

Qualquer dúvida sobre a campanha Literaturas em Rede, entre em contato pelo e-mail coisaprobule@yahoo.com.br ou através do nosso Formulário de Contato.


>>> E se você possui um site ou blogue que não é de nem sobre literatura, mas que é de cultura, artes (música, cinema, teatro, artes visuais, HQ’s, fotografia, design, arquitetura etc.), se inscreva no Culturas em Rede (clique no banner abaixo e saiba mais).


23 Fevereiro, 2012

'Arqueologias do olhar', de Frederico Spada Silva



Arqueologias do olhar é o livro de estreia de Frederico Spada Silva, financiado pela Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura, da Prefeitura de Juiz de Fora (MG). Apresenta sessenta poemas escritos entre 1999 e 2011 e distribuídos em quatro seções temáticas: “Minimalismos da calma”, “Gramática dos sonhos”, “Desmazelos da palavra” e “Delimites do existir”, que dão unidade não apenas aos poemas nelas incluídos, mas também a todo o livro, marcado pelo delicado escavar poético das palavras, descobertas por um olhar criativo e meticuloso e dispostas em comunhão com o lúdico e o onírico. Segundo Helena Maria Rodrigues Gonçalves, que assina o prefácio da obra, “o lançamento de Arqueologias do olhar traz à literatura brasileira contemporânea o projeto poético de um jovem constantemente inquieto com a existência e precocemente apaixonado pelas tramas da linguagem. Ao mesmo tempo em que Frederico Spada mostra-se ávido por inserir-se no ritmo das pulsações da contemporaneidade, sua índole poética recusa-se a deixar-se tragar pelos modismos proliferantes, o que confere à sua produção poética um caráter peculiar: sua arqueologia consiste também na escavação de uma convergência – trata-se da convergência entre a tradição e a vanguarda, entre o popular e o erudito, ou seja, sua poesia consubstancia-se como um palimpsesto de vozes”.

Arqueologias do olhar
Frederico Spada Silva
Juiz de Fora, Funalfa, 2011, 86p.
ISBN: 978-85-7878-056-2

Onde comprar:
À venda diretamente com o autor, pelo e-mail arqueologiasdoolhar@gmail.com, ou, em Juiz de Fora (MG), nas livrarias Quarup (Rua Padre Café 484, São Mateus) e Vozes (Rua Espírito Santo 963, Centro).

Sobre o autor:
Nascido em Belo Horizonte, em 1982, vive em Juiz de Fora desde 1990.  Estudou Medicina durante três anos, mas se formou em Letras (Português, Francês, Latim e respectivas literaturas) pela Universidade Federal de Juiz de Fora e é Mestre em Estudos Literários pela mesma instituição, com dissertação sobre a obra poética de Hilda Hilst. Escreve desde a adolescência e já participou de diversos concursos literários, tendo obtido alguns resultados relevantes, sendo os mais recentes: menção honrosa (4º lugar) no 4º Prêmio Nacional de Poesia – Cidade Ipatinga e 2º lugar no 21º Festival Estadual de Poesia do CLESI (Ipatinga/MG, 2006), com publicação, respectivamente, nos volumes 8 e 9 de Poesia de Bolso; e menção honrosa (4º lugar) no 6º Prêmio Nacional de Poesia – Cidade Ipatinga, com publicação no volume 12 de Poesia de Bolso


*** ***

Caro leitor, será sorteado 1 (um) exemplar do livro Arqueologias do olhar, de Frederico Spada Silva.

  Para participar do sorteio:

-> Primeiramente, é preciso ser seguidor d'O BULE. Caso ainda não seja um seguidor, aproveite para se tornar um (à direita, em Leitores d'O BULE) e participar do sorteio.
-> Depois, vá ao Twitter e poste a seguinte mensagem: RT @obule_blogue Concorra a um exemplar de 'Arqueologias do olhar', de Frederico Spada Silva. Saiba mais em http://www.o-bule.com
-> Caso não possua Twitter, ajude na divulgação criando uma postagem sobre o sorteio em seu blog. Caso não possua nem Twitter nem blog, divulgue o link d’O BULE, se referindo ao sorteio, em seu Orkut ou Facebook.
-> E para facilitar o contato d’O BULE com o vencedor do sorteio, deixe o endereço de e-mail nos comentários desta postagem.
IMPORTANTE: Aquele que não for seguidor d’O BULE, nem divulgar a postagem (pelo Twitter, Orkut, Facebook, blog ou site) e não deixar o e-mail no espaço dos comentários desta postagem não será incluído no sorteio.

*** Atenção! A promoção é válida até dia 01 de março de 2012. No entanto, o sorteio apenas será realizado assim que alcançar a quantidade mínima de 15 participações. BOA SORTE! ***

22 Fevereiro, 2012

Este mundo não foi feito para alguém tão bonito como você

Por Daniel Lopes


Ouvindo 'Sad eyed lady of the Lowlands', de Bob Dylan.


Quando eu conheci Ângela, ela tinha trinta e dois anos e eu tinha dezesseis, talvez dezessete. Havia dois dias que eu não comia nada de sólido. Estava tentando ser escritor numa cidade grande, mas tudo o que tinha conseguido fazer até então, fora escrever alguns poemas e trabalhar nos finais de semana num lugar imundo, com um banheiro nojento, chamado Caverna do Rock. Aquele era um lugar das trevas, várias pessoas já haviam se matado, ou matado alguém lá dentro. O que me lembro é que eu tinha uma camiseta do Van Gogh, uma bermuda e uma calça. No dia em que nos conhecemos, eu estava tentando dormir, já um bocado embriagado, num dos bancos duros da Caverna, quando ela chegou perguntando por uma tal de Aline, ou Amanda, ou algum nome assim. Falei que nem sequer imaginava quem era essa pessoa e aí tornei a dormir. Ela me acordou de novo. Parecia ter passado a noite numa daquelas farras que deixa as pessoas com olhar de peixe morto, ou peixe vivo... enfim, com uns olhos bem estranhos, tipo Modigliani. 
- O que você vai fazer hoje? 
- Hoje eu ainda não sei, por enquanto, estou tentando dormir. 
- Você não tem nada em cima aí não, tem? 
- Olha dona, tem dois dias que eu não como, porque não tenho dinheiro, daí a senhora já imagina, que, se eu tivesse alguma coisa em cima, não estaria numa situação dessas. 
- E essa camiseta?
- É a noite estrelada, do Vincent. 
- Eu sei porra, você gosta? É difícil um menino na sua idade gostar dessas coisas.
- Pois é, mas eu gosto. 
- Bom pra você. – Ela disse e acendeu um pensativo cigarro. Eu, do meu lado, já não conseguia dormir, porque ela era bonita. Fiquei lá deitado com meus olhos olhando pra ela, até que ela me perguntou: - Vem comigo, quero te pagar um café. Levantei num pulo e pedi pra ela esperar só mais um pouquinho, porque eu era um rapaz muito asseado e precisava escovar os dentes. 

Então nós entramos no carrão preto dela e andamos por uns trinta minutos até encontrar uma bela padaria, onde tomamos um opíparo café da manhã, com direito a frios, pães, frutas, geleia, suco, leite, café. Eu me fartei, porque tinha mesmo que encher o estoque da barriga, não sabia quando e nem de onde viria a próxima refeição. Ela me falou de livros. Disse que eu deveria ler o Ariel, de Sylvia Plath. Eu disse que queria ser escritor. Ela me falou de Joni Mitchel. Eu disse que estava aprendendo Bob Dylan. Ela me falou de Milton Nascimento e Frida Kahlo. Eu disse que tinha lido umas trinta vezes o Pequeno Príncipe. Ela me falou que eu tinha talento e tempo. Eu disse que tinha medo. Ela me disse que tinha um filho a quem não via havia uns cinco anos. Eu disse que ainda era muito jovem e que não era ninguém pra dar conselhos a quem quer que fosse, mas que ela devia ir devagar com as drogas. Ela sorriu um riso triste e disse que os sinos estavam enferrujados, mas que o natal estava chegando. 

E aí nós decidimos ir ao parque, caminhar um pouco e ver alguma exposição no museu de arte moderna. Eu concordei. E nós fomos, e foi um dia bonito, e ela pagou o almoço também, e nós conversamos mais um pouco, e parecíamos mesmo velhos conhecidos de mesma idade. No fim da tarde, ela me deixou na Caverna e me deu um pequeno beijo, sem língua nem nada e eu não pude acreditar que tinha beijado aquela mulher. Não mesmo.
***
Da segunda vez que encontrei Ângela, eu estava trabalhando como cortador numa confecção. Ainda não era o artista que imaginara na adolescência, mas já tinha escrito um pouco mais. Foi no final dos anos noventa e eu já conhecia algumas coisinhas a mais sobre arte, cultura e essas coisas todas, que são mesmo as únicas coisas que me interessam neste mundo escroto. Ela estava fumando outra vez o seu pensativo cigarro num ponto de ônibus. Era mesmo ela, mas tinha envelhecido um bocado e eu cheguei a estranhar que ela estivesse esperando o ônibus, afinal de contas, da última vez que nós havíamos nos visto, ela tinha aquele seu tremendo carrão. 
- Oi Ângela – eu disse – sorrindo aquele meu velho sorriso tímido de quem procura ser aceito. Ela ficou olhando meu rosto como se estivesse tentando se lembrar de onde me conhecia. 
- Não se lembra de mim? Perguntei.
- Pra dizer a verdade, até que me lembro, mas não sei de onde. E aí eu lembrei pra ela todo aquele episódio da Caverna do Rock... e do café da manhã... e do passeio... e do parque... 
- Nossa cara, você está diferente, agora é um homem. Está bem. Ficou um cara bonito. 
Eu disse que ela continuava linda. Ela sorriu e disse que aquilo era generosidade minha. Era engraçado, mas ao lado dela, eu sentia como se tivesse cinco anos, junto da primeira namorada, que nem mesmo namorada era, mas que eu amava, como um menino ama a Maria, mãe de Jesus. Perguntei se ela tinha tempo para um café. Ela disse que estava indo a uma reunião de narcóticos anônimos e não gostava de chegar atrasada. Insisti. Tudo bem só um café, ela disse. 

Na padaria, contou-me que tinha perdido o controle e todo o resto com as drogas. Mal tinha o dinheiro para o ônibus, contudo agora se sentia melhor. Havia quatro meses que não usava qualquer substância que lhe alterasse a consciência. Então ela sorriu meio de lado, como se estivesse se desculpando de alguma coisa e eu não pude resistir e ajeitei, com todo o carinho que as minhas mãos poderiam ter, os cabelos dela atrás das orelhas. Ela continuou sorrindo daquele jeito, como se chorasse por dentro, e eu senti um tremendo nó na garganta e fiquei com uma puta vontade de agarrá-la e beijá-la e dizer que a amava com todo o meu corpo e a minha alma e que ela não precisava mais ter medo, porque eu cuidaria bem dela pra sempre e ninguém nunca mais iria fazê-la sofrer, porque eu não deixaria. 

Entretanto nada fiz. Timidez, ou sei lá o que. Pra mim ela não era mulher, era quase que uma divindade. É muita pretensão sonhar casar-se com uma deusa. Nos despedimos de um jeito triste. Em silêncio. Eu tinha mesmo dentro de mim cinco anos. Nem sequer telefone trocamos. O ônibus levou ela embora. Havia luzes acesas dentro do ônibus e eu a vi passando pela catraca e ela me lançou um último sorriso. Do lado de fora do ônibus, onde eu estava, era tudo noite e só noite.

***


Quando encontrei Ângela pela terceira vez, mal pude reconhecê-la. Foi ela quem me abordou. Eu estava passando por uma praça no centro da cidade e quase não parei quando aquela mendiga tentou me segurar pelo braço. 
- Vai dizer que não está me reconhecendo?
Fiquei olhando aquele rosto sujo. Com aquela boca faltando alguns dentes. E só com muito esforço foi que consegui reconhecer alguns traços da Ângela que eu havia conhecido atrás daquela máscara de dor e mágoa. 
- O que aconteceu? - Fiz a besteira de perguntar. 
- Ó cara, nem me pergunte uma coisa dessas, por favor não me pergunte o que aconteceu. Aconteceram tantas e tantas coisas ruins. Mas você... você... graças a Deus... está ficando mais bonito a cada dia que passa! 
- Bondade sua. 
- Bondade nada... me conta... e as novidades... 
Foi aí que contei pra ela que agora trabalhava como tradutor e estava pra lançar o meu primeiro livro. Tinha me casado e meu filho estava com catorze dias. Não devia ter falado do filho. Seu rosto se tornou ainda mais dolorido e ela abriu devagar a boca pra dizer:
- Eu é que nunca mais vi meu filho. - O espinho prateado da rosa ensanguentada agora devia ser um homem. Pelo menos foi o que ela disse. 
Levei-a até um bar e paguei-lhe um lanche e um suco. Ela não conseguiu comer nem a metade da comida. Perguntou se eu podia dar-lhe algum dinheiro. Eu disse que, se ela quisesse poderia conseguir uma internação em alguma clínica de recuperação, ou coisa assim. Ela sorriu outra vez, aquele riso triste de sempre. Balançou a cabeça baixa e disse como alguém que já não tivesse mesmo a menor esperança. 
- Não adianta. 
Perguntou de novo se eu tinha algum dinheiro. Dei a ela uma nota de cinqüenta reais. Seus olhos brilharam. Ela apertou o dinheiro com força na mão direita e então me deu outro pequeno beijo na boca. Aí inventou uma desculpa e atravessou a praça quase que correndo. Não podia conter a ansiedade e o desejo da droga. Pobre Ângela. Eu atravessei a praça, entrei na catedral, ajoelhei-me e fiz uma prece por ela, e por mim, e por todos os desajustados desse planeta. Estranhamente, o beijo dela tinha gosto de camomila.
- Um fantasma com gosto de camomila. - Disse em voz baixa e sorri outra vez esse meu riso de quem deseja ser aceito.

21 Fevereiro, 2012

Nova série n'O BULE: A puta

Por Marcia Barbieri


Caros leitores d’O BULE,



A puta é um romance inédito e em processo de produção, ele será publicado em formato de folhetim no dia 6 de cada mês. Embora ele não seja dividido por capítulos, utilizarei a capitulação apenas para fins de organização durante a publicação no site.


Repasso a opinião de alguns não-leitores sobre a narrativa A puta:

Leitor número 1: O nome é excitante, imagino que a narrativa seja bem picante!

Leitor número 2: Se eu fosse você eu venderia no Sex Shop.

Leitor número 3: Você não tem vergonha de escrever romances desse tipo? Eu morreria de vergonha... Eu sei que é só literatura, sei que não é autobiográfico, não é autobiográfico, é?

Então, espero vocês no dia 6 de março!!!

20 Fevereiro, 2012

O pedido

Por Rafael Cal

ELE está em um bar.
ELA chega.

ELE: Tava preocupado.
ELA: Desculpa o atraso.
ELE: Não tem problema. Acabei de chegar.
ELA: Trouxe os papéis?
ELE: Tão aqui.
ELA: Vi sua irmã ontem.
ELE: Mesmo?
ELA: Disse que a gente não devia.
ELE: Ela devia cuidar da vida dela.
ELA: Também pensei isso.
ELE: É fácil olhar de fora.
ELA: Mas, fiquei pensando no que ela me disse. Talvez ela tenha razão.
ELE: Olha, não me confunde mais. Por favor.
ELA: Pede pra mim.
ELE: O quê?
ELA: Pede alguma coisa.
ELE: Não. Não vamos começar isso de novo.
ELA: Pede alguma coisa ao garçom.
ELE: Ah.
ELA: Tô com fome.
ELE: O que você vai querer?
ELA: Uma taça de vinho.
ELE: Tinto.
ELA: Isso.
ELE: Merlot.
ELA: Exato.
ELE: (com a voz grave) Isso me custou muito caro, sabiam? Mas, o que é o dinheiro, quando estamos falando da vontade da minha menina, não é mesmo? Vocês viram o vestido dela? Mandei aquele viadinho do costureiro comprar o melhor tecido que tivesse na Europa!
ELA: (imitando a voz de um homem) Viram o relógio do noivo? Eu que dei! Aquele lá carrega um apartamento no pulso, graças a mim!
ELE: E o buffet?
ELA: (imitando a voz de um homem) Por mim, eu tinha mandado matar logo uns cinco ou seis bois, uns cabritos, uns dois porcos. Não gosto dessas frescuras de rodelinha de pão com negocinho em cima, não, de torradinha com pastinha. Eu queria mesmo era um puta churrasco! Mas, a mulher diz que não é de bom tom, que não é chique, não é mesmo?
ELE: O seu pai é uma figura.
ELA: Pede logo.
ELE: Tudo bem.
ELA: Pede pra eu ficar.

Rafael Cal - Quando era criança, sonhava em ser cosmonauta, mas acabou escrevendo. O texto, ainda na adolescência, ganhou as páginas de fanzines, jornais, rótulos de palmito e os palcos, como dramaturgia. Hoje, encontra lugar no blog http://fazendoumdrama.blogspot.com/ e, eventualmente, em um ou outro site que acha os textos legais.

19 Fevereiro, 2012

Quatro poemas de Muna Ahmad Yousef


Gitano

Amor não é um galo
arrepiado, cego
cantando no sereno
O amor se desfaz
das embalagens descartáveis
mas deixa o copo de veneno
Amor não é mel
de abelha rara
nem é fel
nem tapa na cara
cavalo correndo com o vento
água correndo pra ver o mar.
                                                                           1987

 Conjugal

Tinha ar de geladeira vazia
deixava de manhã cabelos caídos na pia
bordando o branco de nossa convivência.
A solidão dos planetas
a dissolução dos amores
o silêncio da madrugada
a notícia do jornal.

                                                                              1987
Quaresma

Guardei as fantasias
lavei a casa
abri a alma
fiz novos canteiros
semeei papoulas e dálias
Cortei os cabelos
comprei lanternas e lupas
fiquei nua na janela
olhos postos no céu
no fundo de mim
passa um rio
onde adolescentes de seios duros
e bocas ruidosas banham-se de manhã.

                                                                                  1995

 Do esquecimento

Sapatos pisam fundo nos dias
Tardes desiguais:
tem as de vento
que fazem carnaval nas saias da gente.
Tem as que escurecem rápido
como coito de alguns animais.
Tardes quentes
banais
cada beduíno em seu pedaço de deserto.
                                                                                 1997

Muna Ahmad Yousef é poeta e professora. Mora no DF e trabalha na Estação Ecológica  Águas Emendadas. Os poemas publicados aqui fazem parte do livro inédito Da boca pra fora.