27 Maio, 2012

A ponte


Por Geraldo Lima

A rajada de vento apanhou a folha de papel jogada sobre a ponte e a transportou numa viagem desengonçada por sobre as águas do rio. A mulher acompanhou a trajetória da folha até não avistá-la mais, talvez tenha caído na água e se dissolvido toda, pensou. E no mesmo instante desejou ser aquela folha de papel e ser arrastada pelo vento. Ser, enfim, arremessada contra uma superfície sólida ou líquida e desaparecer inteira.

Quando pequena, ela já sentia a vertigem de se imaginar jogando ali do alto da ponte. O corpo, como um tronco de árvore podre, flutuava por alguns instantes e depois era arrastado violentamente pela força da gravidade. Sua imaginação febril agia com tanta perfeição que ela podia ouvir o som da água se esparramando toda em ondas concêntricas assim que o corpo a tocava.

Uma árvore de tronco podre, é assim que se sente agora. E está prestes a romper com as raízes e tombar no vazio. Só espera a próxima rajada de vento colhê-la sem aviso e delicadeza.

25 Maio, 2012

Dez libras esterlinas


Por Nilto Maciel

Enterraram minha alma na Rua de Matacavalos e na praia da Glória, cercanias de meus sonhos, arredores da infância. Meu corpo descerão à cova funda em algum cantão, para lá de meus olhares. Com ele desaparecerão os idílios de menina, os olhos de ressaca, desvãos de ser. Entregaram-me às frias suíças do senhor abandono, eu sonhadora de ruas infinitas, alamedas de ipês, jardins de nunca mais. Tudo por dez libras esterlinas. Ou porque Ezequiel, o ausente, o renegado, tem os olhos voltados para si mesmo, como Escobar. Ou o mesmo modo de voltar a cabeça e os mesmos gestos das mãos e pés de Escobar.

Aqui nestas paisagens antes vistas somente em livros, revejo o quintal de Matacavalos, o muro em que desenhei meu nome e o de Bentinho, aquela paixão, aquele amor brotado do chão, de nossos pés inquietos, de nossos olhos que viam até o invisível. E por onde andas, meu filho? Por que queres tanto o desconhecido, o insondável, o inatingível, o fim de mundo? Por que não voltamos às praias de nossa cidade? Em teus olhos vejo tempestades que, longe, se aproximam. Vejo fagulhas no horizonte. E lavas de lágrimas nos meus campos.

Tudo vão em mim. Os sonhos de ser mãe, de viver um amor eterno, de ser conduzida em carruagens de ouro – nenhum deles se concretizou. Porque Ezequiel é incompleto para mim. Nasceu, existe, mas é como se tivesse nascido depois de tudo ou existisse além de mim.

Juntei moeda após moeda e as guardei como quem guarda segredos. Sobras do que me dava Bentinho para despesas mensais. Escondi-as com cuidado e medo, como quem oculta pedaços de solidão debaixo do travesseiro. Moedas que nunca se transformaram em riqueza, em ouro, em potes de ouro. Pois elas rolaram num repente, como se vivas fossem, rodaram no rumo do mar, do abismo. Giraram diante de nossos olhos e nada pudemos fazer, nem eu, nem Bento. Rolaram e atrás delas fomos. Primeiro Escobar, em braçadas de náufrago. Entanto, as moedas desciam ao fundo, pelo peso delas, pelo fulgor do sol, pelo calor dos dias. Corremos também eu e Bento, separados, desunidos, como se fosse possível reavê-las, impedir o seu sumiço, em sua inexorável descida ao fundo de nós mesmos. Descaímos para o abismo, atrás daquelas libras esterlinas, e nele afundamos. E tudo se deu aos poucos. Minha queda teve início no dia em que confidenciei a Escobar a vontade de juntar dinheiro e transformá-lo em ouro. Não, minha queda vem de muito antes. Vem do tempo do seminário. Bentinho me falava do novo amigo Escobar. Realçava suas qualidades, como a de saber calcular depressa e bem. Os anos passavam e mais Bento se afeiçoava a Escobar. Quando este se fez negociante de café, Bentinho passou dias e dias a prever riquezas para o amigo. Quando se conheceram, pareceu-me encantado. Falou-me dos olhos, das mãos, dos pés, da fala do outro. Não senti ciúmes, porque estes ele os tinha em profusão. Mais do que apólices no cofre. Além disso, não bastassem os ciúmes, José Dias vivia a lhe encher o espírito de maledicências de mim.

Para que queres ouro, Capitu? Eu me calei. Eu queria muito ouro, como o dos tesouros antigos. Ouro em barras, em joias. Mas como fazer isto sem que Bentinho desconfiasse? Numa das nossas visitas a Escobar e Sanchinha, em Andaraí, aproveitei uma distração de Bento e me refugiei no jardim. Escobar me seguiu. Postei-me atrás de uma árvore. Ele se aproximou, a passo lento, e parou às minhas costas. Senti a sua presença. Não seria a de Bentinho. O cheiro de um e de outro não se confundia. Virei-me. Ele enfiou os olhos nos meus, sorriu. O que eu escondia? Em um instante, disse-lhe tudo. E onde estão as libras, cunhadinha? Ele assim me chamava quase sempre. De Capitu não queria me chamar. Por quê? Marquei encontro em minha casa. Fosse numa hora em que meu marido estivesse ausente. Eu não imaginava outra coisa, senão ouro.

Tive um sonho enigmático há poucos dias. Éramos crianças e brincávamos os três: eu, Bentinho e Escobar. Mas como isto se deu, se não conheci o finado ainda menino? Talvez fosse Ezequiel. Andávamos por um quintal vasto e tenebroso. Havia árvores aqui e ali. Muros não se viam. Eu propunha: vocês ficam aqui e eu irei me esconder. Quem me achar primeiro ganhará um beijo. E dez libras esterlinas. De onde você tirará essas libras? Ora, bobinhos, cada um de vocês me dará cinco libras de faz-de-conta. E corria entre as árvores. Os passarinhos voavam pelos galhos, cantavam, pousavam numa e noutra árvore. Eu parava, não me deixava ver, ouvia passos e novamente corria. Mais adiante me ocultava atrás de uma pedra. E ouvia passos vindos do lado oposto àquele por onde andavam os meninos. Quem estaria ali, além de nós? Súbito via diante de mim enorme serpente: Queres provar o fruto do amor? Ou o da riqueza? Que queres mais, menina? Assustada, eu corria de volta e me deparava com Escobar, que me abraçava e beijava. E atrás dele os olhos de Bentinho me chamavam de pérfida. Empalidecida, eu recuava. Bento, irado, empurrava o outro para as águas do lago. Escobar caía n’água, afogava-se, debatia-se, afundava. Eu gritava: vamos socorrê-lo, ele está se afogando. Bento parecia possesso. Não, não irei salvá-lo. No entanto, Escobar emergia e caminhava até nós. Eu não disse que ele se salvaria? Veja os músculos dele. E apertava o braço de Escobar.

Sonhos como este se repetem com frequência. Estou sempre acusada, acuada, perseguida, humilhada. Fora dos sonhos, vivo de solidão e saudade. Principalmente de Matacavalos e da praia da Glória. O primeiro beijo, o calor que me envolveu durante dias e dias, a sensação de estar a me queimar, como se minha alma se abrasasse.

No último sonho, o de hoje, Bentinho se sentava à beira da cama. Eu agonizava. Ele me confortava: vou te curar. Mas terás de engolir estas dez libras. Escobar se aproximava: o que estás fazendo? Verás. Ao ingerir a primeira, Ezequiel, o filho de vocês, desaparecerá, como se não tivesse nascido. Não será sequer lembrança. Não terá passado de desígnio. Mas tu a matarás com isso. Não, eu não a matarei. Extinguirei, sim, a minha dor. A segunda pílula libertará Capitu do exílio, como se a Suíça não houvesse, como se o vapor que a trouxe até aqui nunca tivesse atracado em porto brasileiro. Devorada a terceira libra, estarás em Catumbi. Não continues, Bentinho, isto é loucura. Loucura é te ver aqui. Vai, assenta-te na tua sege de luxúria, vai passear com as tuas bailarinas, enfeitar de ouro o pescoço delas. Vai, meu comborço. Pois ao deglutir Capitu a quarta libra, tu te matarás no mar. Darás braçadas e mais braçadas, como se buscasses o inacessível, e, cansado, sucumbirás e serás conduzido sem vida à areia. Na quinta dose, estarás no seminário e falarás a mim tuas iniquidades. Consumida a sexta, viveremos, Capitu e eu, dias e noites sem fim e sem princípio. Na sétima falarei de estrelas para Capitu, que olhará para mim como se eu fosse o céu. Ao ingerir a oitava libra, estarei rapaz, serei bonito e Capitu me adorará. Chegada a nona, deixarei o seminário e, livre, buscarei Capitu. Ao introduzir na boca a décima poção, estaremos em Matacavalos, seremos crianças, tu não existirás para nós, eu a beijarei, farei suas tranças, estarei em seus olhos, tragado por eles – mar em que desde sempre estive afogado e para sempre estarei. E seremos como deveríamos ser: eternos.

 * Este é o sétimo conto da primeira parte do livro Luz vermelha que se azula, de Nilto Maciel.

22 Maio, 2012

A última mulher

Por Daniel Lopes

Para Martin Heidegger 

“As lágrimas de alegria que os mortos derramam pelo primeiro que não mais morre.”
Elias Canetti

No ventre da última mulher
Um óvulo sonha inútil
[Os homens já não são]
A última mulher pinta as unhas para o fim
& se maquia só para a morte
Não mais silêncios ante o Absurdo
Não mais desesperos ao pôr do sol
Não mais a morte devorando a vida que torna a nascer sem cessar

(Há um lago e o silêncio das águas)

A última mulher carrega o vácuo nas algibeiras
& fura os olhos de Deus
A última mulher assassina a própria morte com seu óvulo infecundo
& trava a roda do devir
Sobre a face das águas flutuam inúteis
Um piano branco
            Um exemplar da Odisséia
                         Um par de luvas de boxe
                                 Um pincel que pertencera a Paul Cézanne
A última mulher povoa a Possibilidade
& tranca
Com seus imensos cadeados
A porta de abertura do Ser.

21 Maio, 2012

Campos ceifados

 Por Marcia Barbieri                                                                                      
O rio é um mar pequeno, infinito e tenebroso. Cavalos marinhos devorando submarinos de todas as cores e mastigando cadáveres frescos. Carvalhos sentimentais. Cardumes de olhos me olham. Espiões. Peixes esperando serem fisgados.
Relembrar é estranho... É viver duplamente o que deveria ser subtraído da memória. Reencarnações. Engulo estranhas pílulas brancas. Não se compra a paz. A sanidade num frasco de vidro. Medley. Duzentos anos para decompor. Tarja preta.
O divã é um culto intelectual às emoções mortas. Lazaro e suas roupas em farrapos.
- O que você está sentindo?
Moscas mortas. É o que eu vejo toda vez que fecho os olhos. O perolado das moscas mortas. Varejeiras.
- Conte mais. O que mais você vê?
- Redes resgatando enguias. Cristo mergulhado em ódio e silêncio. Sinestesias. Mantos revestindo pedras. Sanguessugas cobrindo meu corpo.
- E a sua infância? Qual o cheiro da sua infância?
- Vísceras frescas. Leitos. Vidas submersas. Chuvas e escombros de janeiro. Velas queimando sobre carne. Diálogos escorregando entre os vãos obscuro da portas.
- E a morte? Você tem medo da morte?
- Não. Penso na morte como números cabalísticos. Inevitável. Roda da fortuna.
- A morte não te surpreende?
- A morte, algumas vezes, não é surpreendente. Não chega feito um batedor de carteiras. Vem mansa e certa, como a correnteza... Como uivos em noite de lua plena. Como o suicídio previsível dos desesperados.
- E a sua mãe, gostaria de falar dela?
- A minha mãe estava na beira do rio comigo no colo, não me recordo nitidamente, acho que meu irmão brincava um pouco mais distante, aí então...
- Pode continuar.
- ... foi então que ela perdeu os sentidos, a vida perdeu o sentido. Eu puxei-a pelos cabelos e gritei, gritei, gritei, mas a correnteza foi levando, levando... Ainda sinto seus cabelos escorregando entre meus dedos finos e enrugados, sua vida se tornando fluida e transparente.

Era um aquário, depois virou rio, depois virou mar.
- E o mar?
O mar é apenas um rio grande, infinito e tenebroso. Tão somente... Campos ceifados.



20 Maio, 2012

Pedro e o sonho

Por André Giusti

Desceram correndo as escadas sete ou oito jovens enfileirados. Era bem dividido o grupo, três ou quatro homens, três ou quatro mulheres. Faziam algazarra, estavam felizes, leves como é a cabeça na idade que tinham. Os homens falavam graças uns para os outros e para as meninas, contavam também piadas, mas inocentes, aquelas bem bestas, sem palavrões ou indecências. Elas riam, achavam bobeira, como a vida toda acham que são as coisas dos homens e o que eles dizem.

Pedro era o primeiro da fila. Ele não lembra se apenas ria ou se também dizia besteiras, mas percebeu que estava uns cinco degraus à frente de quem o seguia. Ela estava mais para o final, da metade da fila para trás. No último degrau Pedro esticou a mão esquerda, segurou firme na curva do corrimão e deixou que o corpo fosse no embalo da descida até quase o primeiro degrau do outro lance da escada. Ali fincou a ponta do pé direito, fazendo-a de freio. Parou e voltou um tanto de nada, feito um carrossel que encerra a diversão. Plantou-se bem no fim do lance de escada que todos ainda desciam. Dali olhou para o alto, ria de algo que ainda dizia ou que ainda ouvia, mas sempre olhando para ela, vendo-a se aproximar. Passou por ele a segunda pessoa da fila, desviando em cima; a teceira também, a quarta, a quinta. Mas ela, não desviou, e Pedro teve a certeza – feliz – de que ela não queria mesmo desviar. E quando já estava próxima, ele esticou para o alto a mesma mão esquerda que soltara do corrimão. Ela pegou com a delicadeza de quem toma um lenço e veio tal como paetê ao encontro de Pedro. Se ensaiado fosse, o movimento talvez não conseguisse tanta perfeição. Ela veio girando, enroscando no braço dele, parou enlaçada na cintura, agora pelos dois braços de Pedro (ele tão galante, tão jovem no sonho, uns 25 se tanto. Ah! Quantos anos atrás Pedro tinha 25 anos?). O último da fila passou também desviando em cima. “Olha isso aí vocês dois, hein?”, e a galhardia prosseguiu escada abaixo quando o grupo percebeu que os dois ficaram para trás, a sós.

Pedro era um sujeito comum, e como tal não gostava das segundas-feiras. Mas naquela não lhe ocorriam temores e frustrações. Sentado na beira da cama às 6h30 da manhã, apenas uma angústia lhe assaltava: a de não lembrar do rosto dela. Este fugira-lhe da mente, escorrera-lhe a lembrança feito água derramada de um baldinho de criança na areia da praia. Como são fugazes as memórias dos sonhos, era apenas o que Pedro lamentava naquela manhã em que o fardo de mais uma semana incrivelmente não lhe pesava nos ombros. Fixou algum ponto do quarto onde o dia claro ainda não alcançara. Dali, enovelou de volta o sonho. Tudo mais era nítido, feito a manhã anunciada há pouco. A algazarra na escada, a correria, seu gesto cavaleiro. Agora vinha a certeza de que até mesmo música existia, em algum lugar lá embaixo do prédio, onde certamente uma festa esperava aquele grupo feliz e em paz com a vida. Mesmo da cor dos cabelos dela, Pedro poderia afirmar com certeza: eram castanhos claros, anelados na ponta, chegavam no máximo aos ombros. Noite fria, céu cinzento, e Pedro lembra-se de mais esse detalhe recortado no basculante do corredor do prédio. Por isso ela vestia blusa de gola alta bege, talvez por cima estivesse um casaco pesado e marrom, Pedro acha que sentiu a textura do couro legítimo quando a enlaçou e ela sorriu seduzida. Havia um sorriso de sonho no rosto, mas do rosto Pedro não lembrava.

- Pedro! Um avião caiu com duzentas pessoas! Todos mortos, uma catástrofe! – bradava o redactor de notícias da pequena emissora radiofônica em que Pedro trabalhava. Mas, de olhos e ouvidos ausentes, Pedro adentrou a ampla sala como se os pés não tangessem o chão encardido. Cruzou mobília e computadores decadentes flutuando feito pena que se desprendesse do pássaro que mais alto voasse sobre a cidade.

Sorrindo para o todo e para o nada, Pedro fustigava as imagens do sonho, tentando que se deslindasse a que mais ansiava lembrar: o rosto que sabia belo, mas que se quedava incógnito na distância das horas que separavam Pedro do que sonhara. O máximo a que conseguia chegar eram os olhos castanhos de penumbra e o sorriso de felicidade sincera, de alegria de festa, de euforia de conquista. Mas nada na lembrança de Pedro encontrava pouso na moldura de um rosto de mulher.

- Pedro! Morreu o fabuloso astro da música pop! O mundo está abaladíssimo! – e o velho redactor puxava cabelos ralos num ir e vir sem destino e objetivo. Enlevado pelo sonho, Pedro sentia-se balão de gás desprendido da mão de menino.

No meio do dia, Pedro vagava pela avenida principal sem almoço e sem fome. Tão displicente sempre para quem passava ao lado, agora fitava todas as mulheres no caos da cidade sem coração e dó. Verificava que rosto seria possível sustentar o sorriso que só conheceu no mais belo dos sonhos que teve, de toda a vida de verdade que viveu.

A estudante que abraçava os livros no ponto do ônibus; a mãe jovenzinha que afoita entregava o filho na escola; a modelo sorridente que anunciava creme dental no para-brisa do ônibus. O avião, o astro pop! E o mundaréu de gente se apinhava comovida na frente do magazine para ver as TVs ligadas na vitrine. Nem a moça que apresentava o noticiário nem a correspondente internacional, nenhuma delas. E o sorriso flutuava sem moldura nos flashes que sobraram da madrugada.

- Pedro! Quebrou o poderoso banco estrangeiro! Faliu a grande fábrica de automóveis! O mundo vai à bancarrota, Pedro! E os brados incansáveis do redactor ainda eram ouvidos no fim do expediante, no corredor que recebia a noite, mas foram sumindo à medida em que o elevador chegava à portaria que Pedro cruzou para pegar a avenida onde todos os rostos eram apenas confusão de sombras e luzes de neon. Talvez alguma ex-namorada, pensou sacolejando no ônibus, mas também o passado não lhe trouxe resposta. Torceu a fechadura da humilde quitinete e o peso de casa fechada o dia inteiro deu-lhe as vindas sem nenhum entusiasmo. Vizinhas, colegas de emprego que teve. Cruzou a passos curtos a sala e a solidão que por contigência há anos desposara; a professora do primário tão nova, e despejava a sopa de pacote na tigela de água morna; antigas colegas de ginásio, e partia cascas de pão de forma que sobraram; o banho pingado no chuveiro elétrico, ex-namoradas de amigos. Só que nenhum rosto capturava o sorriso do sonho na noite vazia de Pedro, no escuro do quarto em que ele chama o sono com esperança de que venha junto o mesmo sonho e o gosto de ser amado como nunca foi.

André Giusti é escritor e jornalista, autor de A liberdade é amarela e conversível e A solidão do livro Emprestado, ambos da Coleção Rocinante, da editora 7Letras. É carioca e mora em Brasília.

19 Maio, 2012

3º Cafetel Literário


O jovem e premiado escritor paranaense Rodrigo Domit visita Uberlândia no dia 01 de junho, sexta, para lançar o livro Colcha de Retalhos. O evento será realizado na Cafeteria Vozzuca (Praça da Bicota, Centro), das 19h às 21h. A obra é composta majoritariamente por contos, mas também apresenta prosas poéticas e crônicas. O texto inteligente e de agradável leitura conquistou o primeiro lugar no Prêmio Utopia de Literatura, organizado em 2010 pela Utopia Editora, de Brasília. Além disso, a publicação também foi finalista do Prêmio Nacional SESC de Literatura, em 2008.
Assim como uma colcha de retalhos, a obra apresenta-se como um emaranhado heterogêneo. Entretanto, o autor desenvolve costuras e amarras entre os temas, estilos, linguagem e ritmos. São 73 textos curtos, que conquistaram a admiração de especialistas:
“Em seus microcontos, Domit expressa o universo denso da sociedade contemporânea. Com palavras dosadas, ele constrói textos milimetricamente estruturados. Ao longo de seu livro pode-se deparar com uma variedade de estruturas textuais e de linguagens que nos fazem refletir abismados sobre os mais variados temas”, citou a escritora e jornalista Karen Debértolis, de Londrina (PR).
Sobre o autor:
Nascido em Curitiba em 1984 e atualmente morando no Rio de Janeiro (RJ), Rodrigo Domit escreve contos e poesias desde 2003. É coautor do livro de contos Vem cá que eu te conto (2010) e autor deste que está prestes a ser lançado. Entre outros certames literários, já foi selecionado nos concursos Luiz Vilela (Contos – 2007), Helena Kolody (Poesias – 2008 e 2009), Prêmio SESC (Livro de Contos – 2008), Poemas no Ônibus (2010 e 2011) e Prêmio ler&Cia – Livrarias Curitiba (Contos – 2011). Além destas classificações, foi 1º colocado nos concursos Machado de Assis (Contos – 2011), Prêmio Cidadão (Poesia – 2011) e Prêmio Utopia (Livro de Contos – 2010).
Onde e quando:
01 de junho, sexta-feira, às 19h, na Cafeteria Vozzuca (Praça da Bicota, Centro, Uberlândia-MG)
Entrada franca (coquetel por conta da casa)

Programação

> 19h – Abertura 

> 19h30 / 20h – Declamações, por Fernando Martins
Declamação e leitura de textos próprios (aberto ao público)
{ Ensaie. Leve um poema ou um texto em prosa. Mas leve um texto seu. Leia-o para o público. Antes, envie seu nome e faça sua inscrição: rogers.silva@yahoo.com.br (Rogers Silva) pagcultural@gmail.com (Página Cultural)}

> 20 h / 20h40 – Bate papo com o escritor Rodrigo Domit: A publicação de um livro: dificuldades e soluções

> 20h40 / 21h – Lançamento do livro Colcha de Retalhos, de Rodrigo Domit (Rio de Janeiro)
{ Finalista do Prêmio SESC de 2008, o livro Colcha de Retalhos, de Rodrigo Domit, ganhou o Prêmio Utopia, a partir do qual ele foi publicado }

Espaço, de Rodrigo Domit
“__ Eu preencho meus dias com ela.
__ E quando ela vai embora você fica com um buraco, vazio.
__ Não é que fique vazio, eu guardo espaço para quando ela voltar”.

17 Maio, 2012

Trilha sonora do 'Manicômio' (parte III)

Meus olhos verdes (folhetim romântico)


EPÍGRAFE:


Did they get you to trade
Your heroes for ghosts (…)
And did you exchange.
(Wish You Where Here, PINK FLOYD)



*** ***
TRECHO: "A questão acima o instigava. Como? – se perguntava, agora deitado na cama, no som tocando Lady in red, olhando o teto escuro, pouca alumiação que vinha da janela aberta. A lembrança do rosto de Jéssica também o instigava..."



*** ***
TRECHO: "Esfregava o peito tentando assustá-lo, expulsá-lo, fazê-lo sumir. Isso não pode ser. Faz tão pouco tempo. Tão pouco tempo! O jeito é dormir. Amanhã estarei melhor... Dormiu com o som ligado. Tocava Words".




*** ***
TRECHO: "A noite, após uma breve chuva à tarde que atrapalhara o casal, pois combinara em passar o dia todinho juntos, ao ar livre, estava fria. No som, a música-clímax da paixão: Total eclipse of the heart".





*** ***
TRECHO: “Até que enfim a música ridícula que estava tocando acabou, pois não tem nada a ver com a situação que relembro agora. Quero uma canção que eu possa questioná-la. Talvez esta:
Eu tranco a porta pra todas as mentiras
E a verdade também está lá fora... Será que existe verdade lá fora?
A porta fechada me lembra você a toda hora...
Que tanto de ‘portas’ são essas?
Orientação...



>>> Manicômio é um livro de Rogers Silva. Será publicado em julho de 2012. Há mais música no folhetim romântico Meus olhos verdes e em todo o livro (mais trilha sonora AQUI).

Abraços!
Rogers Silva.

16 Maio, 2012

Paisagem das montanhas


Por Ricardo Novais

Quando Rita desembarcou na rodoviária do Tietê, logo se viu diante de gigantesco mistério guardado no coração da cidade grande. Percebeu-se, então, como parte deste coração tão cosmopolita, mais precisamente num dos portões mais importantes onde a dona Esperança recebe os forasteiros.

Entre movimentos céleres e bater violento de pernas pátio afora, Rita observou rostos desconhecidos tão dela reconhecidos d’algum lugar. Dona Esperança foi logo chegando e lhe dizendo:

- Que belezinha! De onde você veio, menina?

- De Minas...

Rita achou tudo na cidade uma peça monumental. Ela veio por amor, amor ao noivo que não foi buscá-la na rodoviária, não deu notícia nenhuma de seu paradeiro e não soube que ela arrumara emprego numa pensão da Ponte Pequena. Mas dona Esperança era patroa boa; deu-lhe comida, ofício, roupas afrancesadas e companhia certa nas noites frias, também nas quentes.

Entretanto, nem toda felicidade do mundo é completa; Rita sentia muita dor de solidão – não mais do noivo antigo, mas das antigas montanhas. Numa tarde de folga ela andava pela Praça da República quando viu um quadro belíssimo, pintado por artista sensível e bucólico. Era paisagem de montanhas, cobertas por um verde muito vivo e tocante, uma sobreposta à outra, como encaixadas em cenário de papelão. Rita comprou a aquarela; sorrindo de alegria, pendurou-a na parede de seu quarto recordando-se das porteiras de sua terra natal que havia deixado para trás.

Deitada na cama a olhar a paisagem das montanhas pendura na parede, ela imaginava tudo que o real panorama não lhe mostrava. Rita abria a vidraça e tentava ver algo a encaixar-se entre tantos prédios, nada via além do cinza; então fechava a janela contra o frio, vento, chuva, insetos, ladrões, fantasmas, enfim, fugia por instantes da cidade de garras árduas. Ao anoitecer, o acender humano lhe dava a visão desejada: a paisagem das montanhas, com a linha do horizonte a tocar o mágico e formoso sol descambando numa luz alaranjada, discreta, bem colocada, onde tudo é tão vasto que a pequenez não tem fim. “Deveras, quadro belíssimo! Que artista estupendo!”, dizia ela consigo. “Sinto como se estivesse junto de mamãe naquela serra...”.

A vida foi assim passando para Rita; vida estéril, artificial, impessoal. É verdade, amiga leitora; a moça sofria de tudo – menos falta de amor já que não se pode sofrer do que não se tem. Nenhum dinheiro trouxe gosto à paisagem que ela enxergava de sua janela...

Noutro dia dona Esperança morreu, Rita herdou a janela da patroa. Vitral maior, vista bem localizada para o Pico do Jaraguá, onde a luz e o ar entram com maior entusiasmo e esplendor; mas nem isto é bom consolo a quem só consegue ver é o beco, como diria Manuel Bandeira. Rita dependurou o quadro de paisagem de montanhas à parede de seu novo quarto; este foi sempre a sua companhia de solidão entre seus ofícios sutis e inexplicáveis – onde a felicidade não inspira nenhuma confiança.

13 Maio, 2012

Um timaço argentino - Malagueta # 28

Por Daniel Lopes

       Nossos vizinhos argentinos gostam muito de comparar coisas incomparáveis. Eles, frequentemente, bradam, aos quatro ventos, que Maradona é Deus e que Pelé não passa de um santinho menor. Não bastassem os números, Pelé fez três vezes mais gols que o Deus argentino, nós ainda teríamos o desenvolvimento de cada um dos atletas nos fundamentos básicos do futebol. Maradona era canhoto, (e que canhoto!) mas Pelé, em se tratando das pernas, era ambidestro. Maradona era um tremendo driblador, Pelé também. Aqui empatamos. Pelé era um exímio cabeceador, Maradona até quando fez gol de cabeça, fez gol de mão, La mano de díos, segundo ele. Por enquanto, o placar está em três a um, certo? Em se tratando da qualidade do passe, acredito que ambos empatam novamente, o que deixa o placar em quatro a dois. Vitória de Pelé e do nosso futebol. Mesmo assim, Maradona ainda tem um diferencial, talvez um golzinho a mais a favor dele: o argentino ganhou uma copa sozinho em 1986, coisa que Pelé não chegou a fazer. Garrincha talvez tenha conseguido tal feito em 1962, mas Garrincha é uma outra história.
            Nosso futebol é melhor do que o deles, não há dúvida. Como diria a Preta Gil, (credo!) se eles são bi, nós somos penta, e cinco sempre foi mais que dois.
            No futebol não dá pra eles, entretanto não é necessariamente de futebol e nem desse tipo de time que quero tratar aqui. O objetivo deste artigo, ou resenha, ou sei lá o que... é levantar a bola para o timaço da literatura argentina no século vinte. São tantos nomes que é até difícil se ater a qualquer um deles em especial. Fica difícil qualquer tipo de escolha, ou eleição, num time que tem jogadores, digo, escritores, do porte de Roberto Arlt, Adolfo Bioy Casares, Ernesto Sábato, Julio Cortázar e Jorge Luís Borges. Seria delicioso, se eu tivesse paciência, debruçar-me numa análise abrangente e profunda da obra de todos estes escritores. O grande problema é que sou preguiçoso. Macunaimado ao extremo, talvez. Portanto, não me vou delongar além da paciência do leitor e nem vou além da minha própria paciência. Só quero levantar a bola, quem quiser, que corra atrás dos livros dos caras e da crítica especializada. Tratarei aqui, portanto, de apenas um ou outro texto dos últimos três escritores citados anteriormente.
            Vamos lá! Mãos à obra! Não, ainda não, antes de nos debruçarmos, ainda que de maneira preguiçosa, sobre a obra de Sábato, Cortázar e Borges, é necessário esclarecer um tópico, para que este nosso texto, que é seu também leitor, não fique manco e seja logo condenado por falta de paralelismo semântico, ou sintático, ou de qualquer outro gênero. É o seguinte: comecei este trabalho, comparando o futebol brasileiro ao argentino, seria, portanto, lógico na tessitura das ideias, que agora eu continuasse comparando escritores brasileiros e argentinos. É óbvio que também temos um timaço no século vinte, com escritores do porte de um Guimarães Rosa, um Graciliano Ramos e uma Clarice Lispector. Acontece que literatura é Arte e eu acho desonesto com qualquer artista a comparação. Até porque, todo artista é o seu universo, e todo ator, todo pintor, todo escritor... enfim, todo artista, grita a sua verdade, e entrega a sua alma, e faz o seu melhor. Não que os atletas também não façam tudo isto, mas Arte é outro papo. Ainda que existam obras de Arte melhor, ou pior realizadas, todo artista é grande, e é bom, e é bonito.
            Isto posto, tudo esclarecido e o texto, mesmo que capenga, já devidamente amparado pelas muletas da explicação, vamos ao que interessa, que são os três escritores fodões aí do lado, digo... aí de cima. Sem querer confundir espaço geográfico e textual. Se é que me entendem.
            Comecemos por Borges que é um escritor de textos curtos, mas amplos de significação. Pequenas pérolas, eu diria, e qualquer um pode dizer, ainda que seja piegas a comparação entre textos e pérolas. Atenhamo-nos, pois, a uma destas pérolas, melhor, destes contos, o completo: Pierre Menard, El escriptor del Quijote.
            Resumidamente, o texto conta a história de um escritor que acaba de morrer, cuja maior obra é ter conseguido reescrever dois capítulos do Dom Quixote. Visto assim, parece simples, mas esta narrativa dá muito pano para a manga. Percebam que Pierre, não copia o texto do Cervantes, ele tenta tocar, outra vez, o mesmo mistério, alguns séculos depois. É um trabalho quase impossível e é totalmente quixotesco... inútil, afinal de contas o livro já existia. Mas aí entramos em contato também com Platão e seu mundo das ideias. Talvez o Quixote perfeito, se é que pode haver um melhor, esteja lá, repousando em algum lugar, em estado de dicionário, basta alguém que saiba tocar para alcançá-lo. Tal discussão é extremamente pertinente num tempo em que a inspiração vem sendo, constantemente, massacrada e o trabalho do artista vem sendo comparado com qualquer outro trabalho, que não exija coisa alguma, além do esforço. Sou de posição contrária, acredito que o artista é um predestinado, quase que um xamã. Sei que a Arte também é feita de um trabalho árduo e racional. O problema é que a maioria das pessoas, hoje, acredita que só o trabalho árduo e racional construa a Arte, e não é isso. A Arte é feita de uma mistura de racional e irracional. De consciente e inconsciente. De Apolo e Dionísio. Portanto, meu caro cabotino, nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Beleza, chega de Borges.
            O homem que escreveu Sobre heroes y tumbas e El túnel parece, ele mesmo, uma de suas personagens obscuras, enigmáticas e monomaníacas. Sábato foi um cientista, mas, num determinado momento, percebeu que a ciência não era capaz de explicar a coisa toda. Deixou-a de lado. Partiu com todas as forças para a pintura. Pintou. Pinta. Ainda faltava, ainda falta alguma coisa: tentou a ficção. A impressão que tenho, quando leio seus textos, é a seguinte: um cientista, perdido num pântano, numa noite sem lua, procurando algo que nem ele mesmo sabe o que é. Sábato parece não conhecer suas personagens, elas quase que conseguem viver independentes dele. Mesmo assim, ele as segue por vários cenários. Acredito ser esta a grande força de seus livros: as personagens, principalmente as femininas. É evidente que em  Sobre heroes y tumbas ele tentou um romance completo. Onde pudesse retratar o particular e o universal. É evidente também, que lá estão experiências literárias importantes, como a narrativa fragmentária, a mudança de foco narrativo e os tempos superpostos e colados, como se as personagens, literárias e históricas, fossem unidas pelos mesmos sentimentos, mas em épocas e mundos distintos. Nada disso, entretanto, se compara à força ficcional, ou real... sei lá, de personagens como Alejandra e Fernando Vidal Olmos. Quanto a esta personagem feminina, é necessário deixar registrado aqui, como um à parte, que eu nunca vi um nome se encaixar e traduzir tão bem uma personagem: Alejandra é Alejandra. Bola pra frente.
            El túnel, comparado com Sobre heroes, é um livro menor em número de páginas, mas é igualmente, uma história de beleza incomensurável. O eixo da narrativa também é a obsessão, como quase tudo o que o autor escreveu. Sou louco por esta novela, ou romance, entretanto não vou me aprofundar em qualquer questão referente a ela. Os que necessitarem de mais informações, procurem pela resenha do meu xará, Daniel Lopes.
            Para quem deseja ter um primeiro contato com a obra de Sábato, acredito ser El túnel, o texto ideal. Aos já familiarizados com a linguagem do autor, sugiro Abbadón, el exterminador, dentre seus três livros de ficção, será este, quiçá, seu texto mais hermético. Com isto, passemos a Cortázar. Mais precisamente para um direto de direita chamado Las babas del diablo.
            Certa vez Júlio Cortázar, ele mesmo, assim como eu, um grande admirador de boxe, disse que, enquanto o romance era uma luta ganha por pontos, o conto devia ser como uma luta ganha por nocaute. Sejamos, pois, nocauteados por Las babas del diablo.
            Mas, antes de travarmos tal batalha, é necessário preparar o cenário. Determinados textos fazem-me agir, e espero que isto contamine também você leitor, como um adolescente. Las babas é um destes casos. Toda vez que tenciono relê-lo, vou preparando o terreno alguns dias antes. Começo ouvindo sons tenebrosos do Black Sabbath e sigo deixando minha alma perambular pelos terrenos de água parada dos Doors. (A metáfora dos Doors foi boa, não foi não?)
            Sempre que possível, corro, como outro passo de um mesmo ritual, atrás do Blow up do Antonioni, filme que, a meu ver e no ver de muita gente, tem muito em comum com o conto. Só depois de tudo isto, encaro a narrativa. Está ansioso? Calma, leitor, que a luta já vai começar. Soltem os escorpiões.
            Las babas del diablo começa e termina como uma aula de literatura. A princípio, o narrador trata da impossibilidade de se narrar algo. Questiona a dificuldade de escolher entre uma narrativa em primeira, segunda, ou terceira pessoa, tanto do singular, quanto do plural. “Si se pudiera decir: yo vieron subir la luna, o: nos me duele el fondo de los ojos, y sobre todo así: tu la mujer rubia eram las nubes que siguen corriendo delante de mis tus sus nuestros vuestros rostros. Qué diablos.” Por fim, o narrador acaba optando por uma mescla entre primeira e terceira pessoa.
            Resolvida a questão do narrador, passemos à mistura produzida entre tempo e espaço na narrativa. Liguem-se no período: “Uno baja cinco pisos y ya está em el domingo”. O cara desce de seu apartamento até o térreo e já está em outro dia! É, ou não é terrível e belo?
            A maneira como o enredo é construído, é outro aspecto impressionante do conto. Roberto Michel, um tradutor e fotógrafo, num dia qualquer, tirou foto de um casal numa praça erma de Paris. A mulher que compõe o casal é mais velha que o rapaz, ele deve ter no máximo quinze anos. Todavia, há também alguém mais na cena, um homem, cuja face está coberta de um pó estranho que lhe esconde as feições. Este ser misterioso também aguarda o desenlace da história, dentro de um carro negro. Não conto mais nada... vale à pena ir atrás.
            A professora Heloísa da Costa Milton, da UNESP de Assis, certa vez me disse que é imperdoável o uso de alguns adjetivos num texto crítico. Bem... não sou crítico: Cortázar é foda!
            Outro lance que não poderíamos deixar à margem, é a maneira como a trama é construída: aos poucos, como se o narrador estivesse estudando o leitor, da mesma forma que um boxeador estuda o adversário, dentro do quadrilátero. Parece-me que Roberto Michel vai gingando com as pernas da palavra, soltando apenas alguns golpes curtos. Sem pressa, o texto vai minando a defesa do leitor e, no final, vem a pancada e o nocaute.
            Como já disse antes, seria interessantíssimo produzir um estudo, que se aprofundasse na obra de Borges, Sábato e Cortázar, mas aqui não é o lugar e eu tampouco tenho paciência para isto. Por enquanto é só. Todos os idiomas repousam nas bibliotecas. E o dicionário é o livro definitivo de qualquer língua.      

11 Maio, 2012

Fandemônio nº 5: Me dá uma pra viver

Por Roberto de Sousa Causo

Eu cresci em uma cidade do interior do Estado de São Paulo, chamada Sumaré, e não tenho problema algum em admitir que, até onde eu saiba, o melhor escritor que Sumaré já produziu é o dramaturgo e cronista Walter Cavalcanti de Paiva. Nós nos conhecemos lá por 1988, no Clube de Literatura de Sumaré, criado pela bibliotecária Terezinha Ongaro Monteiro de Barros, que na época chefiava a biblioteca pública. Eu lá lidava com ficção científica, é claro, e um dia, anos depois, Walter me disse – veja que ele não perguntou, mas me disse – que a ficção científica era a minha utopia.
“Mas qual ficção científica, exatamente?”, eu perguntei. “A da invasão da Terra por alienígenas, a da distopia totalitária, a da superpopulação ou a do pós-apocalipse nuclear?”
Moral da história: ficção científica não é ideologia, é só um gênero literário – o que justifica a sua abordagem de temas duros e sombrios, aos quais ninguém em sã consciência poderia atribuir qualquer aspecto utópico.
É claro, uma história de FC pode ter uma ideologia. Certamente, a ficção científica que foi escrita em países soviéticos devia ser comunista, e a FC escrita nos Estados Unidos devia ser bem capitalista, assim como a FC francesa seria... Sei lá, pós-estruturalista?
O escritor cubano Yoss (José Miguel Sánchez) contou uma história divertida, no Festival Utopiales 2002, em Nantes. Num painel sobre ficção científica global, ele contou que publicou um romance de FC no qual ainda existiria capitalismo no futuro – e foi imediatamente processado pelo governo de Cuba, país no qual o único romance de FC americana liberado para a publicação e leitura era Os Mercadores do Espaço (The Space Merchants; 1952), de Frederik Pohl & C. M. Kornbluth, uma crítica sarcástica ao consumismo.
Yoss, de qualquer modo, foi salvo pelo gongo: seu processo foi suspenso quando caiu o Muro de Berlim. “Obrigado, Gorbashev. Bem na hora!”, exclamou, referindo-se ao fato de o então presidente do Partido Comunista da União Soviética ter permitido o fim da divisão da Alemanha, ao evitar a repressão a protestos na Alemanha Oriental. Aparentemente, as autoridades cubanas passaram a aguardar os desenvolvimentos – e Yoss se safou por uma eventualidade histórica. O episódio, por outro lado, mostra como posições extremas enxergam ideologicamente as especulações imaginativas da ficção científica.
O escritor do noveau roman francês Michel Butor lamentou justamente que a FC enfraquecia seu potencial de “mitologia do nosso tempo”, ao realizar uma multiplicidade de idéias e cenários. Butor sugere – no ensaio “Science Fiction: The Crisis of Its Growth” – que seus escritores deveriam trabalhar coletivamente na criação de um único universo ficcional: “A FC, se conseguisse se limitar e se unificar, seria capaz de adquirir acima da imaginação individual um poder de constrangimento comparável ao de qualquer mitologia clássica.” A proposta de se desenvolver coerentemente um mesmo cenário, que Butor chama de “cidade” e que eu interpreto como “utopia”, levaria os leitores a “organizarem suas ações em relação à sua existência eminente, e derradeiramente eles seriam obrigados a construí-la”. A última sentença do ensaio deixa claro o quanto Butor desejava que a ficção científica assumisse o papel de uma ideologia: “É fácil ver que prodigioso instrumento de libertação ou de opressão [a FC] poderia se tornar.”
Nesta coluna eu tenho pregado a variedade como ingrediente primordial do gênero, e não custa citar novamente Orson Scott Card, que explica o funcionamento da FC a partir dessa perspectiva: “Dúzias, centenas, milhares de vezes [os leitores de FC] viveram o processo de apreensão de uma realidade surpreendentemente nova. Não importa o que o futuro seja, eles já conhecem o processo: reconhecer a contradição entre a visão familiar do modo como as coisas são, e a nova ordem; extrapolar das contradições um novo sistema de causa e efeito; reconstruir uma visão do modo como as coisas são que inclua e acomode as antigas contradições; inventar o seu próprio papel na nova ordem; agir de acordo com o seu novo papel e sua nova visão da realidade.”
Seria justamente essa variedade de experiências o que permite ao leitor de ficção científica enxergar como mudanças de naturezas diversas (tecnológicas, políticas, econômicas, sociais, culturais e filosóficas) operam ao longo do tempo, ou a quais resultados determinadas circunstâncias podem chegar, a partir daquilo que a FC faz costumeiramente, que é extrapolar contextos atuais. Daí surgiria uma forma de senso crítico particular aos leitores do gênero, e sua função de quebrar os condicionamentos sócio-culturais. Isso nos leva ao conteúdo de uma carta de Isaac Asimov, escrita em 1966. “Eu sempre declarei que uma das virtudes da ficção científica é que ela pode romper qualquer tabu sem ter que ser ‘ousada’”, disse o Bom Doutor, naquilo que eu interpreto da seguinte maneira: a ficção científica alcança os efeitos das vanguardas literárias mas de modo acessível, sem a arrogância implícita de dizer que se anda na frente dos outros.
Mas se me perguntassem, na lata, qual é a ideologia da FC mais bem-sucedida do mundo, a norte-americana, eu diria que ela seria, ou estaria muito próxima, do libertarianismo.
Também chamado de “liberalismo clássico”, o libertarianismo (ou “libertarismo”) enfatiza a autonomia e as liberdades individuais, que, se deixadas em paz para se expressarem sob forma de livre-mercado e livre-iniciativa, conduziriam, por um princípio positivo de organização espontânea, a uma condição mais avançada de sociedade, menos propensa à guerra e à opressão. Em geral, o libertarianismo é contrário às intervenções do Estado – que deveria existir apenas para garantir direitos civis – sobre indivíduos, empresas e sociedade, e denuncia o poder coercitivo dos governantes. Para essa filosofia política e econômica, os indivíduos deveriam ser visados pelo poder apenas quando não respeitassem os direitos dos outros, e a natureza humana ­­e sua suposta base moral natural triunfarão se o Estado se retrair e deixar que a sociedade civil se auto-organize.
Para a maioria dos fãs brasileiros de ficção científica, essa ideologia passa batida como “coisa de americano”. De fato, muito do libertarianismo caracteriza a sociedade americana, embora institucionalmente o Partido Libertariano não tenha a força dos dois partidos dominantes nos Estados Unidos, o Democrata e o Republicano.
Graças à minha dieta de FC e outros produtos culturais americanos – o romance Uma Vez uma Águia (Once an Eagle; 1968) de Anton Myrer em particular –, fui muito influenciado pelo pensamento libertariano. É evidente que uma sociedade será mais positiva na medida em que seus cidadãos, individualmente, estiverem empenhados em contribuir para com ela e a agir honestamente no interior dela. Assim como parece evidente que governos e burocratas exorbitam as suas funções. Basta olhar para a opressão econômica que o governo brasileiro exerce sobre nós, com uma carga tributária de 35,13% do PIB, o que limita o poder de decisão individual do brasileiro sobre o usufruto do seu trabalho – especialmente perante do retorno insatisfatório desses impostos sob a forma de serviços essenciais, e diante dos níveis de corrupção no país.
Na FC, basta pensar na obra de Robert A. Heinlein (1907-1988), autor americano que foi socialista na juventude, mas que na década de 1950 já se inclinava para o libertarianismo. Seus romances Um Estranho numa Terra Estranha (Stranger in a Strange Land; 1961), Revolta da Lua (The Moon Is a Harsh Mistress; 1966) e Amor sem Limites (Time Enough for Love; 1973) foram eleitos para o Hall da Fama do Prêmio Prometheus, criado em 1979 para obras de FC de cunho libertariano. O prêmio é entregue pela Libertarian Futurist Society, criada em 1982. A sua mera existência já diz muito sobre o quanto o libertarianismo pesa na conta da ficção científica.
Heinlein foi imensamente influente, conquistando gerações de fãs que cresceram lendo os seus romances juvenis. Foi em algum momento o autor americano de FC mais popular, popularidade que nunca se refletiu aqui no Brasil – o que sugere o quanto nós estamos longe dessa visão político-econômica (ou talvez seus livros tenham aparecido num momento delicado, durante a ditadura militar, quando os discursos libertários eram exclusivos pela esquerda marxista). Mas também é sintomático que a militante do capitalismo radical, Ayn Rand (1905-1982), uma americana que passou a juventude na Rússia comunista, tenha escolhido dramatizar suas idéias na forma de bojudos romances de FC (lançados recentemente no Brasil pela Editora Landscape) como A Nascente (The Fountainhead; 1943) e A Revolta de Atlas (Atlas Shrugged; 1957). Hoje, Allen Steele, com a premiada série Coyote de FC hard, parece ser um dos muitos herdeiros de Heinlein a manter a bandeira do libertarianismo fincada no planeta FC.
Às vezes definido como liberal em termos sociais e conservador em termos fiscais, o libertarianismo incorre, como todas as ideologias, naquelas simplificações que H. L. Mencken denunciou quando disse: “Para cada problema complexo há uma resposta que é clara, simples e errada.” E a economia, a política, a sociedade e a vida humana são a própria definição do complexo – é ridículo propor resolver tudo com automatismos ideológicos, sejam eles do tipo “afastando a burguesia do poder teremos a utopia social”, ou do tipo “o livre-mercado conduzirá a uma sociedade mais feliz e mais justa”. Especialmente porque a organização espontânea pode não levar necessariamente a um estado de bem-aventurança. Afinal, a própria natureza busca antes o equilíbrio, que a utopia. Um equilíbrio violento pode muito bem ser o resultado. Em termos humanos, com a superpopulação e a crise climática global, a oferta de armas altamente eficientes e as comunicações instantâneas e de dimensão planetária, a violência possível, seja num período de transição ou na configuração final da “organização espontânea”, pode ser potencializada e vir a alcançar proporções catastróficas e resultados desastrosos irreversíveis.
Os libertarianos gostam de apontar o dedo para o Estado de bem-estar social na Europa, assim como nós gostamos de apontar o dedo para suas políticas protecionistas. O que ninguém reconhece é que se você tivesse sofrido duas guerras mundiais no seu solo, você aprenderia a conciliar, aplacar e mitigar descontentamentos e insatisfações, por todos os meios possíveis.
Nesse sentido, é compreensível que o espaço cósmico seja o lócus preferido dos épicos libertarianos na FC. A “fronteira final” é isso mesmo – uma fronteira, paisagem despovoada em que os indivíduos se provam e na qual o empreendedorismo é ferramenta de sobrevivência contra a hostilidade do meio ambiente. É por isso também que o planeta dos dorsais – uma sociedade libertariana/militar mercenária criada pelo autor canadense de FC Gordon R. Dickson (1923-2001) para o seu multigeracional “Ciclo Childe” – seja um mundo agrário subpovoado. Menos ingênuos, autores da new space opera como o escocês Ken McLeod não deixam de notar que a mesma tecnologia que manipula energias suficientes para o trânsito rápido entre sistemas solares pode ser canalizada para a destruição total dos adversários. Daí a cínica apologia, em The Cassini Division (1998) de McLeod, do ataque preventivo genocida (veja a espetada da escritora Cheryl Morgan no site Emerald City).
No livro Cyberselfish: A Critical Romp Through the Terribly Libertarian Culture of High Tech (2000), Paulina Borsook, uma ex-colaboradora da famosa revista Wired, disseca e pisoteia o libertarianismo na “cultura eletrônica” americana. Para efeito retórico, e acreditando que o autor e fã americano de FC teriam muito em comum com o membro da cibercultura, eu identifico muito das críticas dela com essa ideologia da FC dominante. (Borsook, aliás, menciona Heinlein, Rand e os cyberpunks.)
A autora dirige suas armas à cultura nerd/geek, cujos membros gostariam de se ver como “homens da fronteira”, e que seria “mais emocionante fazer de conta, em nossos tempos milenaristas, que você de fato vive numa frente de batalha hobbesiana”. Uma afetação heróica que seria muito melhor do que “encarar os problemas reais da nossa era, tais como a violação corporativa da privacidade, a superpopulação, a degradação ambiental e a ascensão de lideres guerreiros pelo mundo todo”.  
Seu outro alvo é a fusão conceitual de biologia e economia conhecida como “bionomics” – a partir do livro de Michael Rothschield, Bionomics: Economy as Ecosystem (1990). A esse livro seguiu-se uma série de conferências, nas quais se discutia como os conceitos darwinistas de sobrevivência do mais forte e evolução pela interação competitiva em um ecossistema (o mercado) funcionariam como impulsionadores do progresso e da prosperidade. Para isso, é preciso desregulamentar (fiscalizar, impor limites e procedimentos) o mercado, deixando-o livre o mais possível, na busca da “ordem espontânea”.
Nóis aqui abaixo da Linha do Equador sabemos no que deu a retração do Estado durante a aventura neoliberal, mas o livro de Borsook, publicado antes da explosão da bolha imobiliária americana – fonte da atual crise internacional –, soa ainda mais importante perante os resultados desastrosos da desregulamentação republicada na Administração Bush. Sem falar do desastre ambiental do Golfo do México, que se pode associar à desregulamentação do setor petrolífero. Livre-mercado às vezes se iguala a desastre econômico socializado e a catástrofe ambiental – não por qualquer razão ideológica, mas simplesmente porque dogma não é substituto para racionalidade e equilíbrio nas ações humanas.
Muitas vezes o libertarianismo soa, apesar de todo o seu propalado pacifismo, como dono de um sombrio lado cultuador da força. Em parte porque no libertarianismo freqüentemente há um elemento de darwinismo social, idéia contra a qual venho falando há algum tempo, como no meu livro Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil: 1875 a 1950 (Editora UFMG; 2003).
Definido como a aplicação das idéias de sobrevivência do mais forte e evolução pela competição entre os seres, o darwinismo social ajudou a justificar o colonialismo e a opressão dos povos da África e Ásia, e dos indígenas das Américas e da Austrália. Considerados mais fracos e portanto perdedores dentro da lógica do mais apto, esses povos estavam destinados ao desaparecimento – como, na ficção científica, Sir Arthur Conan Doyle (1859-1930) dramatizou nos romances O Mundo Perdido (The Lost World; 1912), em que hominídeos preservados num planalto entre Brasil e Venezuela são exterminados por uma aliança entre aventureiros brancos e índios amazônicos, e em A Nuvem da Morte (The Poison Belt; 1913), em que a cauda de um cometa envenena a atmosfera da Terra, atingido primeiro “as raças inferiores dos trópicos’ (a mortandade é enganosa, porém, já que os efeitos são temporários). Em Cyberselfish, Barsook condena a falta de filantropia entre os ricaços do Vale do Silício, associando-a à tendência “tecnolibertariana” da sua mentalidade.
Curiosamente, a justificativa darwinista social da tutela e do controle de povos considerados “inferiores” pelos ocidentais espelha a noção de superioridade moral cristã que justificou práticas semelhantes e todo as missões religiosas no mundo subdesenvolvido. No plano da cibercultura que Pauline Borsook critica, e citando alguns dos profetas do tecnolibertarianismo como Kevin Kelly e Stewart Brand, também haveria uma aproximação do discurso científico biológico e o discurso religioso. “A biologia como metáfora pode colocar sob a asa”, ela sentencia, “crenças que são tão atrasadas quanto [os tecnolibertarianos] são avançados”. De fato, assim como as línguas românicas surgiram da combinação do latim com adstrato e línguas locais como substrato, muitas vezes idéias novas se combinam com as velhas. Achar que novas idéias substituem as velhas é ingenuidade.
Às vezes embutidos em argumentos de antropologia evolucionária, que tenta explicar o comportamento humano, a sociologia, a sexualidade e às vezes a economia (daí a bionomics) e a política a partir da lógica evolucionária – o que é basicamente impossível dada à qualidade intrinsecamente especulativa dos seus argumentos: não importa o quanto eu e você possamos apoiar o evolucionismo nas escolas ou aceitar que somos frutos da evolução da espécie, o fato é que não há mecanismos “finos” que funcionem como ferramentas exatas para o entendimento particularizado dos nossos comportamentos a partir da lógica evolutiva.
Borsook afirmou que “muito do que diz respeito à bionomics é no seu sentido mais amplo uma grande diversão intelectual – ver relacionamentos entre padrões na natureza e padrões em computação ou economia, pensar de maneiras interdisciplinares e aplicar tecnologia com exuberância fora das maneiras óbvias de contar feijão e pagar contas...” De modo semelhante, a antropologia evolucionária estimula o pensamento e nos ajuda a equilibrar a noção radical pós-estruturalista de que tudo – todo o comportamento e todas as variações de interação social e humana – é produto exclusivo da cultura. E vice-versa: a idéia de que tudo é cultura ajuda a equilibrar a pretensão de se explicar tudo pelo evolucionismo.
Nesse sentido, explicar o homossexualismo pela antropologia evolucionária – como Greg Egan sugere fazer no seu romance de FC Terranesia (1999) – parece tão insuficiente quanto a tentativa de certos intelectuais de firmar que toda sexualidade é construção cultural e portanto arbitrária e impositiva.
Na ficção científica americana, a mais bem-sucedida, o libertarianismo freqüentemente encobre um darwinismo social que segue puro ou disfarçado de empreendedorismo capitalista radical, em antropologia evolucionária ou nas novas teorias de complexidade ou emergência (do verbo “emergir” e não do verbo “fugir correndo em pânico”). Essas novas teorias em particular são fascinantes por si mesmas, mas, novamente, entendê-las seus princípios ainda mal alinhavados como certificação científica do dogma do livre-mercado é outro atropelo conceitual.
Uma visão alternativa vem da Europa – a série de Karen Traviss, Wess’har Wars, que imagina espécie alienígena bem-sucedida e tecnologicamente superior à humana, e que se enxerga mais próxima da cooperação do que da competição: “A vida no seu planeta se desenvolveu pela competição”, diz um deles sobre a Terra, no romance The World Before (2005), antes de oferecer: “A nossa se desenvolveu largamente pela cooperação, simbiose e equilíbrio sustentado.” E na minha noveleta “A Alma de um Mundo” (a sair na antologia Space Opera: Jornadas Inimagináveis em uma Galáxia não muito Distante, de Hugo Vera & Larissa Caruso), tento fornecer um argumento evolucionário para uma espécie que, de modo semelhante, valoriza mais a cooperação e a confiança, do que a competição e a rivalidade.
No estágio em que estamos da civilização humana sobre a Terra, a cooperação é a única saída possível.


Roberto de Sousa Causo é autor dos livros de contos A Dança das Sombras (Caminho, 1999), A Sombra dos Homens (Devir, 2004), dos romances A Corrida do Rinoceronte (Devir, 2006) e Anjo de Dor (2009), e do estudo Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil (Editora UFMG, 2003), que recebeu o Prêmio da Sociedade Brasileira de Arte Fantástica.
Seus contos foram publicados em revistas e livros de dez países. Foi um dos três classificados do Prêmio Jerônimo Monteiro (1991), da Isaac Asimov Magazine, e no III Festival Universitário de Literatura, com a novela Terra Verde (2000); foi o ganhador do Projeto Nascente 11 (da USP e do Grupo Abril) em 2001 com O Par: Uma Novela Amazônica, publicada em 2008. Completando um trio de novelas de FC ambientadas na Amazônia, Selva Brasil foi lançado em 2010 pela Editora Draco.
Causo escreveu sobre os seus gêneros de interesse para o Jornal da TardeFolha de S. Paulo e para a Gazeta Mercantil, para as revistas ExtrapolationScience Fiction StudiesCultCiência HojePalavra Dragão Brasil.
Mantém coluna quinzenal sobre ficção científica e fantasia no Terra Magazine (http://terramagazine.terra.com.br), a revista eletrônica do Portal Terra. O jornal A Tarde disse sobre ele: “Roberto de Sousa Causo é um dos mais atuantes escritores brasileiros de FC, horror e fantasia.” Vive em São Paulo, com esposa e um filho.