05 fevereiro, 2014

O Bule voltará a ferver

O Bule voltará a ferver. Aos poucos. Despretensiosamente.

Voltamos a alimentar a página do Facebook d'O Bule com contos, crônicas, frases de efeito, reflexões, imagens, vídeos, frases de banheiro, café, divulgação de autores iniciantes ou não. Muita literatura. Muita arte. Você é nosso convidado de honra. E se quiser publicar/divulgar sua arte, envie para nosso e-mail coisasprobule@gmail.com

Para acessar a página, basta clicar neste link http://goo.gl/D3dKtM
Se gostar das postagens, curta, compartilhe, indique. Quanto mais poesia no mundo, melhor o mundo.
Esperamos você lá.
Abraços!

04 julho, 2013

Sorteio de 'Despoemas', de Roberto Menezes


Quer concorrer a um exemplar do livro Despoemas, de Roberto Menezes? Então clique AQUI.

01 julho, 2013

Lançamento do livro 'Bernardo Guimarães cronista', de Francelina Ibrahim Drummond


"A descoberta de informações e sinais inéditos na obra de Bernardo Guimarães (1825-1884) parece coisa impossível porque, além de muito lido como autor de A escrava Isaura e O seminarista – e, é claro, do Elixir do Pajé, Bernardo Guimarães já teve sua obra toda editada, estudada e traduzida.

      Poeta, crítico, romancista e dramaturgo, Bernardo Guimarães nasceu em Ouro Preto e formou-se em Direito na Faculdade do Largo São Francisco em São Paulo em 1851. Foi juiz em Catalão (Goiás). Retorna a Ouro Preto em 1858. Vive no Rio como jornalista em 1859-60 e, de volta à sua cidade natal, é nomeado professor de Gramática e Retórica no Liceu Mineiro ( onde hoje funciona a FAOP na rua Getúlio Vargas), que tinha sido instalado em 1854 e foi um dos estabelecimentos de ensino famosos na Província.

          Já tinha publicado crítica literária na revista Ensaios Paulistanos (1847) e poesia, com o livro que o tornou então conhecido: Cantos da Solidão (1852). Passou a colaborar na imprensa ouro-pretana que era forte, variada e polêmica. Escreveu para teatro, mas algumas peças se perderam, depois de serem representadas no Teatro Municipal. Fez poesia satírica, fescenina, pantagruélica. Escreveu também versos de homenagem, lamento e comemoração cívica. Dizem que muita coisa se perdeu, porque Bernardo não fazia muito caso, seu talento era grande, e também seu desprendimento. Outras produções foram recolhidas por amigos e registradas.

        Nos jornais de Ouro Preto no século XIX, encontrei uma série de poemas (alguns não registrados em sua obra), notícia sobre peça teatral desaparecida e folhetim com o romance sobre a guerra dos emboabas. Além desses, localizei uma coleção de crônicas publicadas nos folhetins de jornais de 1867, quando Bernardo Guimarães também lançava seu primeiro romance O ermitão do Muquém. E outras crônicas de 1868, 1883 e 1884. A de 1884 foi escrita um mês antes da morte do escritor, e provavelmente seja a última que Bernardo Guimarães escreveu.

           O livro Bernardo Guimarães cronista  -  que é o volume I da série Inéditos, da Editora Liberdade (Ouro Preto) - reedita essas crônicas e outras notícias inéditas sobre a obra do escritor ouro-pretano, entregando ao leitor contemporâneo um belíssimo exemplar de textos, finamente produzidos para o leitor do século XIX Nessas crônicas, Ouro Preto aparece sob diversos ângulos, desde aquele em que o escritor levanta o grito contra a Câmara (que deixava a cidade abandonada e suja), como o que acompanha o desenrolar da guerra do Paraguai e a saída de soldados da Praça Tiradentes; o mau funcionamento do Teatro; as eleições; o lançamento do primeiro monumento a Tiradentes (Coluna Saldanha Marinho); a Semana Santa, chuvas torrenciais e  outros acontecimentos cotidianos da cidade.      

      Meu ensaio crítico O romancista em formação apresenta esse Bernardo Guimarães pouco ou quase nada conhecido, contextualizando a crônica bernardina no ambiente e na cultura do século XIX em Ouro Preto, então capital da Província de Minas".
[ Francelina Ibrahim Drummond ]


Lançamentos:
Dia 31 de maio, às 19:30 horas, no Centro de Convenções da UFOP.
Dia 14 de junho, às 19 h na Biblioteca Pública de Ouro Preto.
Dia 10 de julho – 19 h – Biblioteca Municipal Bernardo Guimarães, Uberaba.
Dia  12 de julho – 19 h – Fundação de Arte de Ouro Preto/Casa Bernardo Guimarães



Contato: Editora Liberdade ( sdrummond@terra.com.br  )

02 fevereiro, 2013

Fotos do 7º Cafetel Literário, por Alecsandra Paula

No dia 25 de janeiro, sexta-feira, quase 150 pessoas passaram pelo Armazém Literário em prol da literatura e das artes: música, leituras dramáticas, lançamento de livros, exposição de desenhos e frases, café, pão de queijo, interação e alegria foram a tônica da sétima edição do Cafetel Literário. Abaixo, as fotos de Alecsandra Paula Tosin











































Realização: O BULE & Coletivo Literatura Subsolo
Apoio: Armazém Literário, Fox Club, Gráfica CopyArt, Jornal Diário do Comércio

24 janeiro, 2013

O Correio de Uberlândia divulga o 7º Cafetel Literário


"A mistura é convidativa. Primeiro, a protagonista da noite, a literatura, e como acompanhamento música e exposição de desenhos. Para fazer jus ao nome, ainda tem café, pão de queijo, chás, sucos e salgadinhos. No 7º Cafetel Literário o foco será o universo infantil, com o lançamento das obras “O pássaro e a lua” e “O menino magro”, de Ricardo Masson, vindo de Itumbiara (GO)".

>>> Continue lendo a matéria do Jornal Correio de Uberlândia sobre o 7º Cafetel Literário AQUI.

18 janeiro, 2013

7º Cafetel Literário



Eis que o Cafetel Literário chega a sua sétima edição. E o homenageado dessa edição será o universo infantil, com todas as suas riquezas, imagens, imaginações. O lúdico que permeia as nossas infâncias permeará o evento. Haverá o lançamento das obras infantis O pássaro e a lua e O menino magro, de Ricardo Masson, escritor de Itumbiara-GO, com sessão de autógrafos e tudo. E com um repertório adequadíssimo ao dia, haverá uma apresentação musical com Kainã Bragiola. Haverá também performances e leituras sobre aventuras, pássaros e luas – imagens e temas trabalhados no livro de Masson. Para embonitar o evento, haverá também uma exposição de digigrafias sobre... coelhos! TantCoelho, de Chris Alcântara. De acordo com a autora, “meninas e meninos de cabelos longos querem ser amigos daqueles coelhos, mas eles não percebem tanto amor. TantCoelho é assim, pensa apenas em si”. Mas o Cafetel pensa em si e em você, que poderá prestigiar também frases soltas pelo ar de janeiro, de Lídia Martins, escritora de Uberlândia. E para fechar o evento com chave de ouro, como não poderia deixar de ser, haverá um cafetel (café, pão de queijo, chás, sucos e salgadinhos) a fim de reunir os amantes das artes, artistas, escritores e leitores de Uberlândia. O universo e as estrelas conspirarão para que você venha ao Cafetel. Vem?

Onde e quando:
25 de janeiro, sexta-feira, às 19h, no Armazém Literário (Rua Teixeira de Santana, 54. Fundinho, Uberlândia-MG)
Entrada franca

Programação:

> Apresentação musical com Kainã Bragiola
> Leituras sobre aventuras, pássaros e luas, por Lídia Martins
> Mostra de Digigrafias: Tant Coelho, de Chris Alcântara
> Frases soltas pelo ar de janeiro, de Lídia Martins
> Lançamento dos livros O pássaro e a lua e O menino magro, de Ricardo Masson
> Sessão de autógrafos com o escritor Ricardo Masson
> Cafetel (café, pão de queijo, chás, sucos e salgadinhos)
> Leituras, declamações e performances abertas ao público
> Interação entre amantes da leitura, dos livros, da literatura

Realização: O BULE
Apoio: Armazém Literário

16 janeiro, 2013

15 janeiro, 2013

Uma literatura de nocaute

Por Marcia Barbieri


Silente

A literatura é a boia dos desesperados, quem escreve tem que aprender sobre os escafandristas, tem que conseguir enxergar os peixes abissais sem perder o rumo. Renato Tardivo aceitou esse desafio, teve coragem de vasculhar esse lugar de seres dementes, de seres marginais, de rostos insólitos. De todas as narrativas, considero o conto um dos gêneros mais difíceis, talvez ele só perca para a poesia. É uma ilusão acreditar que por se tratar de um texto curto ele exija menos do autor, eu diria o contrário disso, é preciso sintetizar, cortar o inútil para que o imprescindível venha à tona, sair do abismo profundo e encontrar a superfície, onde flutuam as vitórias-régias. Isso não é uma tarefa fácil, sintetizar não significa ser breve, mas usar poucas palavras para fazer um universo respirar, sacudir, gemer.

Lendo o livro de contos Silente experimentei na pele uma das definições que mais gosto de Cortázar sobre   o gênero contos. Cortázar diz que enquanto o romance ganha por pontos, o conto ganha por nocaute. Foi assim que me senti ao longo da leitura, sendo constantemente nocauteada. Nenhum leitor poderá sair ileso, sem hematomas depois do contato com as palavras de Tardivo. O autor sabe como se mover dentro da estrutura do conto, não peca por excesso, nem é breve a ponto de deixar os leitores decepcionados, seus contos são muito bem amarrados e apesar de ser um autor novo podemos ver que não é inexperiente, ele sabe manejar muito bem a sua matéria-prima, ainda que se trate de uma matéria porosa, aerada.

Eu me arrisco a dizer que esse escritor tem um apego às circularidades do tempo, poderia afirmar que suas narrativas são enrodilhadas, uma narrativa-oroboro e por vezes, temos a impressão de apreendê-la, no entanto, na próxima linha percebemos que fomos mordidos no rabo pela cobra de nossa ignorância, de nossa pretensão.

A narrativa de Tardivo é um retrato do homem, não diria que é um retrato do homem contemporâneo, mas dessa espécie de homem universal que atravessa todas as épocas, é o retrato dessa alma ancestral, primata, dessa ânsia humana que não passa com o tempo, apenas modifica de circunstância. O mesmo homem-tédio que nas cavernas manejava a pedra e agora maneja o computador.

Encontramos em Silente um flâneur, não um observador externo das ruas, mas alguém que olha os becos, os esgotos humanos, um flâneur íntimo. As suas descrições não são do fora (mesmo quando se trata de mostrar objetos ou cenários), suas descrições são obscenas, eu diria que Tardivo é um anatomista da alma humana e ao longo dos seus contos tomamos nota das nomenclaturas da solidão humana, ele disseca a angústia e nos devolve um quadro desesperador.

Renato não é um autor pronto, porque nenhum autor jamais está pronto, todo escritor é um protótipo, uma máquina experimental, jamais está formado, nunca está a salvo, situa-se entre a emersão e o afogamento, o autor é o próprio devir e é isso que faz dele um ser especial.

O que mais posso dizer sobre essa escritura de desespero? Posso apenas deixar uma alerta ao leitor: se você não está disposto a mergulhar esse livro não é para você, esse livro é para os que têm coragem para o salto mortal.

Livro: Silente
Autor: Renato Tardivo
Editora: 7Letras

11 janeiro, 2013

Entrevista de Rogers Silva à Rádio Nacional da Amazônia



Entrevista concedida pelo colunista Rogers Silva à Rádio Nacional da Amazônia, realizada no dia 17 de dezembro de 2012, para o programa Mosaico, apresentado por Juliana Maya. Nessa entrevista, o colunista exclusivamente sobre o coletivo O BULE: colunistas; colaboradores; campanhas; séries; projetos futuros; e-oficinas, etc. Dê uma conferida!

 E para quem quiser conhecer a rádio e ouvi-la ao vivo, basta clicar AQUI.

07 janeiro, 2013

Há um brilho de faca

Por Daniel Lopes

“eu sei que o amor é bom demais, mas dói demais sentir”
Dalto             

Acorrentado. Amar sem ser amado. Ou será que eu era? Já faz tempo. Hoje achei uma fotografia dela sorrindo. Já faz tempo. Vinte anos hoje. Sei porque é a data do meu aniversário. Eu faço trinta e sete. Fazia dezessete. Detesto os nostálgicos, ainda que seja um deles. Se pudesse construiria uma casa no passado e ficaria morando por lá, junto à piranha que amei. Não que o passado tenha sido bom, não era, já disse que odeio os nostálgicos. Em verdade, em verdade vos digo que o passado era uma merda, mas o problema é que o presente é vazio. E, entre a merda e o vazio, fico com a merda. Paixão é sofrer junto, mas eu sofria sozinho, eu sofro sozinho, com tudo o que tinha de ruim, aqueles foram os melhores dias do meu coração remendado com veias de porco. Falando sério, tenho é inveja desses filhos da puta que arrumam uma dúzia de piranhas pela vida a fora e não se envolvem com nenhuma. Analisam friamente custo e benefício e, como o custo quase nunca compensa o benefício, caem fora e não sofrem. Eu só gostei de uma mulher. E como sou mesmo um filho da puta muito azarado, foi logo de uma puta. Essa não é uma história romântica. E a minha puta não é dessas que choram e têm histórias tristes pra contar, não. A minha puta gostava mesmo era de dinheiro e só de dinheiro. Bem que eu queria que ela gostasse de qualquer outra coisa, mas ela gostava mesmo era de dinheiro.
Estávamos comemorando meu aniversário. Eu e mais dois parceiros. Fomos ao puteiro e ela estava lá.Vocês acreditam em amor à primeira vista? Eu sei, acontece o tempo todo. Eu só preciso de uma ajudinha dos meus amigos. Não vou dizer que tenha sido amor à primeira vista. Antes foi amor à primeira foda. Como tínhamos dinheiro, ela deu logo conta dos três. Tinha uma boceta de fogo. Era impressionante, como conseguia ficar excitada o tempo todo, se visse dinheiro aí então é que transformava mesmo a xota num rio. Eu não posso explicar porque foi que me apaixonei, porque foi que fiquei tão louco. Eu mesmo não sei dizer. Aliás, só escrevo pra tentar desvendar. Ela não era a mulher mais linda do mundo. Não era a mulher mais inteligente do mundo. Não era sequer a mais gente fina do mundo, era uma egoísta, insensível. Não insensível não, porque ela pintava uns quadros. Não sei como eles eram, os quadros, ela nunca me mostrou um deles sequer. De qualquer forma pintava e isso já é alguma coisa, nénão?
Sei que, depois do primeiro dia, eu não conseguia mais parar de ir lá. Ela não falava muito, só fodia. Diabos, havia um mistério e eu precisava decifrar. Acho que tinha lido contos de fadas demais e ficava o tempo todo fantasiando. Ficção e realidade me eram iguais. Eu achava que tinha que me foder um pouco, porque queria ser escritor e todos os escritores se fodiam. É a vida. Mas aí, não devemos brincar com essas coisas. É como brincar de fazer pacto com o diabo, no fim você pode se dar muito mal. Ela não fazia questão de esconder que só queria meu dinheiro e, se viesse a calhar, se divertir um pouco. O problema foi que fiquei obcecado. Perdi todo o meu dinheiro e meu orgulho. Perdi o amor e o respeito de todos que gostavam de mim. Já fumei crack e já cheirei heroína, não posso dizer que apliquei porque sempre tive medo de agulhas. De qualquer forma, já usei drogas bem pesadas e posso dizer que nada me destruiu mais do que aquela mulher. Eu tinha de decifrar o mistério, mas talvez nem sequer houvesse mistério algum, talvez ela fosse uma filha da puta egoísta mesmo. Mas eu cismei que existia um mistério e dentro dele qualquer coisa de ternura. Ternura? Ternura é passar pomada no cu arrebentado da piranha amada depois de uma noite de trabalho. Há que ser delicado e cuidar das pregas como se fossem pétalas de rosa. Como dói. Nos dois. É dor que nenhuma substância química, nenhuma religião, nenhum amigo pode apagar. No fim de tudo ela ria alto e perguntava quanto eu ainda tinha nos bolsos. “Só isso? com esse dinheiro eu só posso te bater uma punhetinha, estou exausta.” E aí ria de novo e pegava meu pau com a mão e só o jeito dela pegar no meu pau, me olhando nos olhos, eu não resistia e gozava rápido. Conversa de apóstolo, aquela idéia de que o amor é bom e não quer o mal. Tem amor de tudo quanto é jeito. Se ele quiser o bem, o amor, sorte do indivíduo. Se quiser o mal, azar do sujeito. Um peixe bem fisgado não escapa do anzol.
Um amigo me disse que  só perdi o controle assim porque sou adotado e meu pai era um bêbado que ficava jogando isso na minha cara o tempo inteiro:
- Eu devia ter deixado esse traste pra morrer em cima do formigueiro. Não sei porque fui tirar esse calhorda de cima daquele formigueiro. Devia ter deixado as formigas acabarem com ele - ficava gritando sempre que enchia a cara.
Minha mãe era boa, mas entrava na porrada também, quando o velho chegava muito doido. Um dia eu cresci e meti a foice na cabeça dele. Ficou mais de um mês internado. Foi bom pra ele aprender uma coisa. Hoje ele está lá, todo fodido em cima da cama. Precisa de alguém que lhe limpe o cu. E eu estou aqui, também não posso dizer que esteja melhor que ele, aqui nessa clínica, com medo de sair na rua e de pegar em dinheiro... Mas também não quero falar disso. Eu preciso é desvendar a puta. Até hoje aquilo tudo me atormenta.
- Isso é espírito de pomba-gira – minha mãe sentenciou logo da primeira vez que a viu. Era uma mulher muito ligada às coisas espirituais, minha mãe. Jamais entenderia uma mulher como aquela que eu amava. Tentei várias vezes, mas não consegui me desvencilhar dela... até que ela morreu. Graças a Deus! Morreu de AIDS, não faz tanto tempo, e ainda riu na minha cara porque a gente tinha trepado uma porrada de vezes sem camisinha. Queria mesmo me destruir eu sei lá o motivo, carma vai ver, mas não conseguiu, porque isso já faz uns dois anos e eu fiz vários exames de lá pra cá. Todos deram negativos. Pior pra ela. E agora sinto até vontade de rir um pouco.
Depois que ela morreu, eu ainda levei flores ao túmulo por um bom tempo. Não havia nada que me convencesse de que não havia ternura lá. Pra mim, era eu quem tinha falhado, eu é que não tinha conseguido encontrar o tesouro que existia dentro dela. Daria qualquer coisa pra ver um daqueles quadros, talvez a chave esteja neles, vai saber. Contudo eu nunca vi quadro algum e nem sequer sei se eles existem, ou existiram efetivamente.
Foi há vinte anos hoje. A vida não vale mesmo a pena para algumas pessoas. Não penso em suicídio, mas pra mim chega. Esse bando de depravados não valem a poeira de que são feitos. Os motéis cospem porra e carros o dia inteiro. Pra mim chega. Faz vinte anos hoje. Que confusão. Os ovos não devem bailar junto às pedras. Nunca.

06 janeiro, 2013

A puta XI



Deixei bem claro que eu cumpria como ninguém meu papel, e o meu papel não era dar amor, era trepar, amor era coisa comprada, custava caro, era mercadoria importada e não conhecia quem vendesse por aquelas bandas. Abaixei suas calças e fiz uma chupeta bem feita. Ele espirrou o jato quente na minha garganta. Fiquei com aquele líquido pastoso um tempo na traquéia, ele demorou um pouco a descer, fiquei intrigada, nunca tinha sentido algo tão denso, que se nega a desmanchar. Confessou que era poeta <então entendi tudo> e por isso trazia a carne putrefata e o mau cheiro, esperava que eu não me importasse, ele já tinha usado todo tipo de perfume e nenhum era capaz de disfarçar a carniça. O cheiro também o incomodava e crescia com os anos, há alguns em nem sequer conseguia sentia nada, agora quase não consigo dormir com esse odor terrível, tenho insônias tenebrosas. Os poetas trocam de pele como trocam de roupas, o dia todo eu me decomponho, está vendo¿ Tem pele descolando por toda parte, poeta é uma espécie de leproso incurável. Não me importava, já tinha visto de tudo. Depois continuou como louco acariciando minha pele, apalpando meus peitos, lambendo minha buceta, enfiando o dedo nas minhas entranhas, seus dedos pareciam uma pinça feita de desespero, enfiava, chegava a suar a testa com o esforço, como se tivesse a intenção de arrancar o que eu trazia escondido por dentro, de lançar minhas trompas aos cachorros. Não tenha medo querida, estou empolgado porque você é a primeira mulher pura que como. Não pude resistir e soltei outra gargalhada, dessa vez ainda mais alta, esperei e escutei de volta seu eco, ele estava de sacanagem comigo, só podia ser. Uma mulher pura, eu¿ Você só pode estar de brincadeira¿ Você é poeta ou comediante¿ Bem, não sei se há grande diferença entre os dois... Vou te explicar o que chamo de pureza. Cansei de foder quem me fode a cara. Tenho levado porrada à toa. A vida inteira tenho comido apenas as mulheres de alma elevada. Mulheres que declamam Paul Celan, discutem sobre dialética e sabe o nome de todos os músculos que produzem o riso. E o que isso me trouxe¿ Nada, absolutamente nada. Percebi que a maioria das mulheres intelectuais não passam de um boi que acabou de ter as vísceras retiradas no matadouro. Todas bichos empalhados. Fazer amor com o ser amado traz à superfície os escorpiões que se escondem nos buracos. Não queria ter dormido com seres que eu amava, preferível a isso seria dormir aconchegado com meu pior inimigo, esperando uma faca me atravessar. Só quem te ama pode te levar ao inferno, pode te fazer andar por lá, pode te fazer encarar o diabo. Não posso chegar ao gozo com tantas amarguras percorrendo meu pau, minha memória, meu pau tem memória e eu tenho memória de elefante, sabe¿. Com você é diferente, seu corpo, seu sexo me é virgem, sua carne é macia, não traz nódulos de outros tempos, não tem ranhuras nem cicatrizes. Eu posso adormecer no seu colo e não cair em abismos, em precipícios. Eu posso oferecer meu pau a sua boca e saber que ele não será decepado, posso oferecer todos os meus membros e saber que nenhum será amputado. Enfio minha língua no meio de suas pernas e sei que o líquido que escorre não será ácido a ponto de me corroer. Sabe, houve um dia em que eu era esquecimento, mas aos poucos fui perdendo o interesse pelas coisas que me faziam humano, observava as guelras suspensas da noite, a pele morta dos répteis... disfarçava meu anseio e passava a mão pelo meu crânio e ela afundava devido a fissura provocada pela trepanação do tempo, apalpava meu ventre e sentia a cada dia que o tamanho do meu intestino diminuía consideravelmente e depois de alguns anos eu não era nada além de um peixe estripado bem na época da desova, um ser vazio, esquecido à margem lodosa do rio. Senti um pouco de raiva daquela falação toda, ela me incomodava, uma ejaculação cerebral inútil, além disso, me fazia lembrar do filho da puta daquele filósofo, não via muita diferença entre os poetas e os filósofos, os dois não mantinham o pau em pé quando o cérebro funcionava, os dois misturavam tesão com citações bibliográficas, tentavam impressionar com a exatidão frouxa das palavras. Nenhum dos dois entendia que as palavras eram mortas e a língua no sexo valia mais que um bando de léxico sem sentido.

05 janeiro, 2013

A cacimba das Lages e os burgos coríntios

Por Nilto Maciel

Tenho lido, com muito interesse, obras em prosa, diversas da ficção. Refiro-me a ensaios (e isso vem desde a juventude, com os estudos filosóficos), relatos de viagem (afundei-me, durante um tempo, naqueles viajantes europeus que para a América vieram), manuais de história, mitologia, sociologia, cartas (quem não leu Pero Vaz de Caminha?), conjuntos de artigos e resenhas, biografias (recentemente li uma de Borges), memórias, entrevistas, etc. No final de 2012, recebi dois volumes cujo assunto os inclui nesse espectro tão amplo: Lembranças miúdas, de Dias da Silva, e Meu brechó de textos, de Carlos Trigueiro.
O cearense (de Lavras da Mangabeira) “enveredou pela biografia e o ensaio, pela crônica de sabor regional e pelo memorialismo”, como observou Dimas Macedo, num artigo. E nele citou algumas de suas coleções: Um Padre e Muitas Proezas (1982), Cenas, Lições e Coisas (1984), Mangabeira nas Artes nas Letras no Mundo (2002) e Pedaços da Vida e Outras Coisas em Pedaços (2002). O ficcionista manauara não é tão prolixo (no espaço quase infinito da prosa não-ficcional) quanto Dias, talvez porque tenha se dedicado mais ao conto e ao romance.  Estreou com Memórias da liberdade (1985), seguido de O “jeito” brasileiro: um fenômeno cultural (2009) e Ilações sobre a criatividade latina e ladina do “jeito” (idem).
Tenho visto Dias da Silva em livrarias e outros lugares, em Fortaleza, onde se realizam encontros de escritores ou destes com leitores. Não nos vemos muito, porém. Mando-lhe meus livros (de ano em ano) e ele me envia os seus. É assim a vida de escritor brasileiro. Carlos Trigueiro só vi uma vez, no Rio de Janeiro. Fez-me saber do nosso mútuo conhecimento, em 1976, na capital cearense. Não me lembro disso, infelizmente. Agora trocamos mensagens eletrônicas, de vez em quando. Outrossim, me brinda com suas publicações e eu retribuo o mimo com meus raquíticos opúsculos. O primeiro tomo de Dias a me chegar aos olhos terá sido Da pena ao vento – I (anotações de pé de página), ainda em 1981. Vieram outros ventos e muitas penas. Se não minto, já são nove. Trigueiro me mimoseou (não em 1994, ano da edição, mas recentemente) com os contos maravilhosos de O clube dos feios e outras histórias extraordinárias.
Ora, estou a me estender demasiadamente em informações inúteis para o leitor. É hora de me voltar exclusivamente para os dois títulos mencionados no início desta crônica. Então vamos a eles, com vagar e didaticamente. (Como não consigo me livrar desses advérbios terminados em mente!).
As reminiscências de Dias da Silva se iniciam no capítulo “Meu pai”. E vem logo a primeira revelação: “Ainda vejo meu pai assim: ele não esbanja carinhos pelos filhos nem pela minha mãe: o amor de meu pai chamar-se-ia amor envergonhado e encabulado”. Encerra-o com um poema em versos livres: “Quero de volta meu pai: jovem e lépido / o tempo – tirano implacável / o tempo – insensível carrasco / enche de neve a cabeça de meu pai” (...).
No “hipotético brechó” de Carlos Trigueiro não há lugar para as lembranças de família, da vida doméstica, da infância. Há nele artigos, um ensaio, entrevistas, aforismos, poemas, contos, crônicas, “imitações de haicais”, “rascunho de palestra”, trechos de seus impressos (como as chamadas “lápides”). Engano-me: há, sim, lugar para as lembranças de família. A parte intitulada “crônicas agudas” trá-las. Uma delas, a primeira (“O ouvido de meu pai”) até cuida do mesmo tema celebrado por Dias da Silva no princípio de seu compêndio. Carlos mostra seu pai assim: “Meu pai tinha o que os americanos chamam de ‘perfect pitch’. Traduzindo em miúdos: tinha ouvido absoluto – a capacidade rara de ouvir e reproduzir imediatamente um determinado som”.
Dos personagens principais de sua vida (pai, mãe, avó paterna, avô), Dias da Silva passa aos lugares – Sítio Lajes (sua primeira morada) e casa da avó – e aos acontecimentos: “Morte na cacimba”. A descrição é minuciosa e bem elaborada: “Minha tia lava roupa com água da cacimba. Não é uma cacimba comum, igual a tantas outras: buraco redondo, cavado fundo, até encontrar veias e água. A cacimba das Lajes de minha avó é diferente. Assim: escavação com um a dois metros de comprimento, e rasa. Feito tanque cavado até dar à água escondida no chão”. Preciosidade de descrição.
A linguagem de Carlos Trigueiro é, do mesmo modo, clara, objetiva e de fácil entendimento. Não somente quando escreve artigos, mas também prosa de ficção. Pois este Meu brechó de textos é igualmente uma compilação de trechos de seus contos e romances. Assim, “Ciúme artístico” (um dos “aforismos do baú”), extraído de O livro dos ciúmes: “Não confio em artistas... Tenho horror de pintores, são traiçoeiros, olham para uma coisa e pintam outra. Ou olham para outra e pintam uma coisa! Nem em músicos, só que a musa pode ser a mulher da gente”.
São dois malabaristas das letras. Dias da Silva, apesar de lidar com reminiscências (da infância), ou seja, de um passado bem distante, não menciona datas (anos) e escreve como se fosse agora, sempre no presente do indicativo: (...) meu pai “dorme o sono doce e sossegado dos bons e dos justos e dos que não estão em falta”. Além disso, certamente já é falecido. Tudo é presente, sejam as pessoas, sejam os acontecimentos. Os lugares, por isso, são descritos como se não tivessem conhecido mudanças. Tudo é (na memória) como era: “A Barra do meu Avô – terrenão bonito, o terreno do meu Avô – é cortada de caminhos e veredas”.
O libertino Carlos Trigueiro (seu mais recente romance se intitula Libido aos pedaços) não se contenta com rememorações infantis (inocentes). Vai direto à sexualidade, como na crônica (são apenas três em todo o volume) “Sala de aula no fim do corredor”. Inicia-a com a apresentação da professora de História, a jovem Helena, a quem chama de uma das “semideusas das enciclopédias de papel acetinado”. E assim narra uma cena, em sala de aula: a mestra, “mãos empoeiradas de giz”, “esboça no quadro-negro os caminhos da helenização do Oriente”. O aluno (narrador) a deseja: “Claro que a persigo – nos meus sonhos e devaneios – por entre as figueiras perfumadas que enfloram ao amanhecer e circundam os burgos coríntios onde ela pisa, vagueia e flutua. Primeiro vejo-a com a túnica descaída, seminua. Mais adiante, sem a túnica, finalmente nua”.
Não farei outras citações, que não sou copista de ninguém e muito menos desmancha-prazeres de leitores. Apenas direi: Dias da Silva e Carlos Trigueiro me proporcionaram neste início de 2013 alguns momentos de prazer. Quem não se regozija com um bom texto? Só se for insensível. Ou não tiver olhos para ler ou ouvidos para ouvir.
Fortaleza, 4 de janeiro de 2013.

30 dezembro, 2012

Pague se quiser! ‘Colcha de retalhos’, de Rodrigo Domit



A obra é composta por contos, mas também apresenta crônicas e poesias. O texto inteligente e de agradável leitura conquistou o primeiro lugar no Prêmio Utopia de Literatura em 2010, organizado pela Utopia Editora, de Brasília. Além disso, a publicação também foi finalista do Prêmio Nacional SESC de Literatura, em 2008, e conquistou, em 2012, o terceiro lugar no concurso internacional promovido pela União Brasileira de Escritores (UBE).
Assim como uma colcha de retalhos, a obra apresenta-se como um emaranhado heterogêneo. Entretanto, o autor desenvolve costuras e amarras entre os temas, estilos, linguagem e ritmos. São 73 textos curtos, que conquistaram a admiração de especialistas:
“Em seus microcontos, Domit expressa o universo denso da sociedade contemporânea. Com palavras dosadas, ele constrói textos milimetricamente estruturados. Ao longo de seu livro pode-se deparar com uma variedade de estruturas textuais e de linguagens que nos fazem refletir abismados sobre os mais variados temas”, citou a escritora e jornalista Karen Debértolis, de Londrina (PR).
"O livro me fez lembrar a velha máxima ‘as melhores essências estão nos menores frascos’. Domit levou isto tão a sério que acabou criando um pequeno clássico, sim, pois abastado de aforismos, inversões, fantasia e, acredite, surrealismo", contou o escritor e professor Ângelo Pessoa, de Cordeiro (RJ).
O projeto gráfico é da ilustradora londrinense Laís Brevilheri. A disposição do livro foi pensada de modo a permitir que o leitor percorra os caminhos traçados pelo escritor ou ainda percorra suas próprias linhas e costuras.


Onde e como ler
Basta acessar o link http://e-bookcolchaderetalhos.blogspot.com.br/  e pagar (se quiser) quanto quiser


Sobre o autor Nascido em Curitiba em 1984, Rodrigo Domit foi criado em Londrina e reside atualmente no Rio de Janeiro. É autor dos livros Vem cá que eu te conto (2010) e Colcha de Retalhos (2011) e foi premiado em diversos concursos literários de âmbito nacional.
Criou e administra o blog Concursos Literários. Além disso, publica exercícios literários no Tiro Curto e colabora na produção e seleção de conteúdo para periódicos da área de cultura e literatura, destacando-se entre estes o jornal Algo a Dizer, o jornal Sobrecapa Literal e a revista Samizdat. Blog: http://rodrigodomit.blogspot.com.br


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28 dezembro, 2012

Promoção! ‘O acaso das manhãs’ e ‘Areia (À fragmentação da pedra)’, de Milton Rezende



“Milton Carlos Rezende estreia de forma brilhante com O Acaso das Manhãs. São poemas reflexivos de alto nível, nos quais o poeta investiga (com ironia) o cotidiano e os problemas do homem. Nessas reflexões (em que se incluem os poemas sobre o poema), o poeta jamais perde a consciência da precariedade da existência humana”.

A visita

De súbito a chuva cessou.
Ponho-me a escrever sobre ti,
criatura sem carne
que me visita.
Não sei de onde vens,
mas sempre chegas
nas horas mais extenuantes
de minha fuga.

Fecho portas e janelas

para não te permitir
livre acesso sobre mim,
que de cansado me basto.
Mas tu me vens sem ser chamada
e mesmo sem chegar em forma clara,
sei que és minha consciência,
e te incorporo.





*** ***




“Em Areia (À Fragmentação da Pedra), o poeta Milton Carlos Rezende prossegue em seu estilo de uma forma contundente e reflexiva. São poemas que buscam resgatar, ao menos em parte, os estilhaços do ser e re/compor a unidade (aparente) da pedra. Mas o poeta sabe que a perfeita junção dos elementos nunca será possível, e apenas tenta torná-la plausível em meio ao deserto de areia”.

Atômico

Nossos filhos nascem cegos
pela poeira do nosso tempo.
Nós ainda enxergamos
porque já entendemos o mundo
a partir da poeira que há nele,
e que não nos incomoda muito.




Sobre o autor
Milton Rezende nasceu em Ervália (MG), em setembro de 1962. Viveu grande parte da vida em Juiz de Fora (MG), mas atualmente reside em Varginha (MG). Escreve em prosa e poesia e a sua obra se divide entre inéditos e publicados. Entre estas últimas encontram-se: “O Acaso das Manhãs” (Edicon, 1986), “Areia (À Fragmentação da Pedra)” (Scortecci, 1989), “De São Sebastião dos Aflitos a Ervália – Uma Introdução” (Templo, 2006), “Uma Escada que Deságua no Silêncio” (Multifoco, 2009), “A Sentinela em Fuga e Outras Ausências” (Multifoco, 2011), “Inventário de Sombras” (Multifoco, 2012) e “Textos e Ensaios” (Multifoco, 2012). Possui inéditos os livros: “Mais uma Xícara de Café”, “A Magia e a Arte dos Cemitérios” e “O Jardim Simultâneo”.


Onde comprar
Exemplares dos seus livros podem ser adquiridos diretamente com o autor através do e-mail milton.rezende@yahoo.com.br (depósito ou transferência na conta do Banco do Brasil, Ag. 032-9, C/C 11.807-9) ou através do site da Editora Multifoco:



Preço promocional: R$ 14,90 cada exemplar (com frete incluso).


* Promoção válida até o dia 31 de dezembro de 2012.
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